terça-feira, 31 de julho de 2012

O PAN-AFRICANISMO E SUA DIMENSÃO PARA AS INDEPENDÊNCIAS AFRICANAS (Dissertação)

INTRODUÇÃO

Depois da segunda guerra mundial a África debatia-se com questões de toda índole, com destaque para as de aspecto político, consubstanciadas na luta pela independência contra o domínio colonial. Essas lutas visavam criar estratégias para o desenvolvimento do continente numa altura em que o mundo se encontrava em pleno auge da guerra-fria e divido em dois campos antagónicos.
Clamorosa era também a situação sócio-política e histórica. Por esta razão, os países procuravam a sua auto-determinação e lutavam com toda bravura e heroísmo, uma vez que as condições sociais, económicas e políticas não eram das melhores. Inconsistente era também o sistema de educação, saúde, comunicação, etc., o que motivou os intelectuais africanos a assumir outros compromissos e rumar para novos horizontes: independência e desenvolvimento
Sabe-se, porém, que o continente africano conheceu a presença europeia em todo seu quadrante, sobretudo depois da perniciosa conferência de Berlim, que formalizou a configuração de África e descartando questões essenciais para a sobrevivência das instituições originalmente africanas.
Uma das raízes mais profundas da dura realidade africana é o mercado de escravos, explorado por árabes e europeus entre os séculos XVI e XIX. Naquele período, mais de 11000.000 de seres humanos foram capturados por portugueses, holandeses, ingleses e franceses, e transportados à força, principalmente para as plantações dos Estados Unidos e para as possessões portuguesas na América.
Encerrado o período esclavagista, no século XIX, as potências coloniais mantiveram o controlo sobre a África, que se tornou fonte de minerais e matéria-prima para a florescente indústria europeia. No processo de colonização, muitas tribos e nações inimigas acabaram unidas à força pelos colonizadores. Por causa disso, as fronteiras dos Estados e regiões reflectiam muito mais os interesses estrangeiros do que a história dos povos locais.
Portanto, cansados com dominação colonial, os africanos uniram vozes contra o colonialismo. E um dos primeiros projectos, para este fim, foi o do Pan-africanismo, ou a união de todas as nações africanas, formulado pelo líder negro Jomo Kennyata[1], do Quénia. O principal obstáculo do Pan-africanismo era a diversidade étnica e cultural do continente. Existiam, como ainda existem, muitas "Áfricas" diferentes, impedindo as tentativas de aliança dos países africanos. Essa inexistência de uma "identidade africana" deve-se, em grande parte, ao fato de a África ter sido dominada, dividida e explorada por potências que nunca se preocuparam com os traços culturais daquelas populações.
Entretanto, neste breve e modesto trabalho iremos nos debruçar sobre os contextos, particularmente, histórico e sócio-político do Pan-africanismo. É claro que este desiderato terá de obedecer criteriosamente os indispensáveis conceitos intrinsecamente ligados á história que são o espaço e o tempo, pois não existe realidade fora destes dois elementos.
Este trabalho apresenta, através de uma pesquisa bibliográfica, uma abordagem do Pan-africanismo, movimento político-social surgido nos Estados Unidos no final do século XIX, e a repercussão que ele teve no mundo negro africano, influenciando a criação de movimentos culturais negros nos Estados Unidos, Haiti, Cuba e França, bem como, um pouco mais tarde, contribuindo ideologicamente para a eclosão de movimentos político-culturais de descolonização na África. Inicialmente, o trabalho traz uma abordagem dos factos históricos, do início do tráfico negreiro ao fim da escravatura em solo americano, que criaram as condições para a criação do Pan-africanismo

Identificação do Problema
O Pan-africanismo desde o seu surgimento fora do continente africano exerceu uma forte influência sobre as lutas dos diferentes povos na América do Norte, do Sul e em África para mudar o quadro então existente dos direitos cívicos e de colonização. Progressos foram observados pela igualdade racial em alguns países e a descolonização foi um facto em África quando na década de 50 assistimos a independência de alguns países e generalizou nos anos 60 nas colónias britânicas e francesas. As colónias portuguesas foram independentes mais tarde devido ao carácter do regime político em Portugal. Qual foi a influência do Pan-africanismo sobre o nacionalismo africano? Como os movimentos de libertação utilizaram o Pan-africanismo para mobilizar as populações para a conquista da independência?


Fundamentação do Tema
A realização de conferências pan-africanas em várias cidades como Paris (1919), Londres (1921) Lisboa (1927), Nova Iorque (1929) e Manchester (1945), o movimento abre-se ao princípio da solidariedade entre os povos e as classes em luta qualquer que seja a sua cor. Pela imprensa, folhetos e conferências os seus ecos chegam às colónias e a ideia Pan-africana toma uma nova forma por o acontecimento situar-se num contexto em que as lutas que se vão desenrolam no continente obrigam os jovens estudantes, sindicalistas e intelectuais a mobilizarem-se cada vez mais contra o sistema opressor.
Objectivos da investigação
Os objectivos que nos levam a escrever o tema são os seguintes:
ü  Objectivo geral: Analisar as origens e a evolução do Pan-africanismo durante o século XX.
ü  Objectivo específico: Identificar os factores que contribuíram para o surgimento do Pan-africanismo e a sua adopção pelos movimentos de libertação.

Definição dos termos
Constituirão palavras-chave do presente trabalho as seguintes:
- Pan-africanismo;
- Nacionalismo africano;
- Movimentos de libertação;
- Luta de libertação;
- Independência.

- Pan-africanismo – doutrina surgida fora do continente africano, mais concretamente nos Estados Unidos da América, que defendia a unidade e o renascimento da raça negra humilhada pelas políticas dos Estados e pela colonização.
- Nacionalismo africano – é um princípio político defendido por africanos que sustém que a unidade nacional e a unidade política devem ser perfeitamente coincidentes. O sentimento nacionalista é o sentido de cólera suscitado pela violação desse princípio ou o sentido de satisfação suscitado pelo seu cumprimento. Um movimento nacionalista é um movimento animado por um sentimento deste género.
- Movimentos de libertação – são formações políticas e culturais que se constituíram para conseguirem a libertação do país do colonialismo europeu.
- Luta de Libertação – é o conjunto de acções políticas, culturais e militares realizadas em África no período que vai de 1950-1972 para por fim a dominação colonial europeia.
- Independência – é a libertação do continente da dominação colonial e a gestão do território pelos nacionais.

 Limitação do estudo
Incidiremos sobre os mais importantes aspectos inerentes ao surgimento e evolução do Pan-africanismo no mundo e a sua penetração em África.

Relevância do estudo
- Importância Teórica: Dar relevância as principais teorias que deram origem ao Pan-africanismo e os postulados dos seus principais precursores.
- Importância Prática: Apresentar algumas ideias sobre a necessidade de formar saberes sobre a influência do Pan-africanismo na luta contra o colonialismo europeu. Ora, esse trabalho, também, mostra-nos um certo interesse na medida em que, fica bem patente as formas de como os africanos uniram e souberam aproveitar as influências exógenas e uniram voz para o alcance da tão sonhada e esperada liberdade, e serve-se de uma extrema portaria aos estudantes, afim de se saber os processos usados pelos africanos ao lutar contra o sistema colonial.

Metodologia
A) Métodos de procedimento:
A.1- Método Histórico: consistirá em investigar acontecimentos do passado que influenciaram as práticas nacionalistas contra o colonialismo.
A.2- Método Comparativo: faremos uma focalização sobre o impacto do Pan-africanismo nas sociedades africanas.
b) Metodologia de abordagem:
b.1- Método Indutivo: A utilização deste método é útil na medida em que será para generalizar aspectos comuns a um determinado número de casos e verificar aspectos dos enunciados a apresentar.
b.2- Método Dedutivo: Será útil este método pelo facto de permitir a explicitação de verdades particulares contidas em verdades universais. Fará a utilização e a ligação entre o antecedente e o consequente para expurgar da investigação os elementos necessários para a sua explicitação.

Hipóteses
Por se tratar de um design descritivo não é necessário levantarmos hipóteses.

Instrumentos
Os instrumentos a serem utilizados para a elaboração desta pesquisa serão:
- A pesquisa bibliográfica;
- Análise dos diferentes documentos.

Tema da investigação científica
- Descritivo
Recolha, processamento e análise de dados
De acordo com a investigação do trabalho, iremos utilizar as seguintes técnicas:
- Pesquisas bibliográficas, recolha de toda a bibliografia necessária para o trabalho.

Partes do trabalho
O presente trabalho está estruturado da seguinte forma: introdução, três capítulos, conclusão, e bibliografia.
No primeiro capítulo, inicialmente, fizemos uma abordagem dos factos históricos relacionados com o início do tráfico negreiro ao fim da escravatura, que criaram as condições para a criação do Pan-africanismo.
O segundo capítulo retrata o impacto que teve as duas grandes guerras nas colónias europeias de África, muito em particular a tomada de consciência das elites intelectuais africanas para o despertar do nacionalismo africano.
O terceiro capítulo, o mais longo, descreve a odisseia dos africanos para a emancipação, esta tornada possível através das expressões nacionalistas como o Pan-africanismo. Neste mesmo capítulo, além de se definir o conceito de Pan-africanismo, faz-se também uma abordagem dos intervenientes da acção Pan-africana bem como das diferentes manifestações do Pan-africanismo.  
Portanto, retornando ao Pan-africanismo como nosso campo de análise, gostaríamos de afirmar que no trabalho que aqui apresentamos não pretendemos abordar toda história, importa apenas salientar alguns aspectos deste processo na medida em que esta referência nos poderá ajudar a compreender a visão de uma das diferentes formas de luta pela independência.   
Capítulo I: Uma diáspora forçada.

Basil Davidson[2], em um minucioso estudo do período do tráfico negreiro, afirma que a África foi extremamente fértil no fornecimento de seus filhos para o desenvolvimento do mercantilismo europeu, iniciado com as descobertas marítimas de Portugal e Espanha e levado ao extremo após as entradas de Holanda, França e Inglaterra no vantajoso comércio transatlântico.
Segundo ele, o comércio de cativos africanos, que desde o início revelou todos os sintomas de uma excepcional crueldade e devastação, tornou-se importante a partir de 1510, quando começou a ser praticado de forma massiva. Antes dessa data ocorreram somente carregamentos esporádicos.
Esse mega e desumano comércio, chamado de Grande Circuito por Davidson, era praticado de forma triangular, envolvendo outros produtos cujos lucros eram todos revertidos para a Europa.
O autor observa que seria com base nos lucros regulares e por vezes fabulosos proporcionados pelo comércio do Grande Circuito que França e Inglaterra iriam construir a sua supremacia comercial, esta última, em consequência dessa expansão económica, obteria condições para realizar uma revolução industrial. Não iremos discutir aqui, por escapar aos nossos objectivos, o fato de a Inglaterra ter comandado uma campanha contra o comércio negreiro e a escravatura quando estes se tornaram obstáculos aos seus objectivos comerciais. O intuito é traçar um painel da desumanidade desse comércio e o peso que ele teve na consolidação das principais economias ocidentais, e especialmente a importância que essa imigração forçada teve na formação das nações da América e o papel decisivo que a diáspora africana exerceu na conscientização dos negros em África, que os levaria a desencadear o processo de descolonização das colónias europeias em território africano na segunda metade do século XX.
Quanto ao número exacto de filhos da África imigrados forçadamente para as três Américas, Davidson acredita que a resposta correcta ninguém sabe e nem jamais virá a saber porque as fontes necessárias para essa resposta perderam-se ou talvez até mesmo nunca tenham existido. Segundo ele, o máximo que se pode fazer é tentar elaborar uma estimativa a partir de dados confusos e incompletos. Observando a disparidade de opiniões sobre a questão, afirma que alguns autores moderados calculam em 15 milhões as vítimas do tráfico negreiro, outros consideram que o número seria algo em torno de 50 milhões e há aqueles que pensam que o número é muito mais elevado. De modo sensato, exprimindo sua opinião pessoal, acredita que esse comércio custou à África no mínimo 50 milhões de indivíduos. Entre aqueles que calculam um número muito mais elevado está Joseph Ki-Zerbo[3], que, partindo da afirmação de W. E. B. Du Bois que cerca de 15 milhões de negros foram vendidos às terras do novo mundo, calcula que por cada escravo que chegava à América morriam quatro no trajecto, perfazendo um total de 75 milhões.
Os sobreviventes desse holocausto negro seriam essenciais na construção de novas nações no novo mundo. Embora os louros tenham ficado com os colonizadores brancos europeus, foram os escravos africanos que pagaram o preço mais alto do grande desenvolvimento económico alcançado pelos Estados Unidos, que já no século XIX tinha o status de uma grande nação comparável às europeias. Também foram eles os principais construtores das nações do Caribe, Brasil, Colômbia, Peru e Equador, e tiveram participação activa na história de outros países das três Américas. Mas, mesmo com toda a importância que tiveram, só muito tarde (mais de trezentos anos depois do início do tráfico negreiro) começaram a ser libertados.
Depois de abolida a escravatura em todo o continente americano (o
Brasil foi o último a fazê-lo em 1888), o negro só teoricamente era considerado cidadão de seu país. Na verdade, ele continuava sob um novo modelo de escravidão. Nos Estados Unidos, país onde nasceu a reacção negra que se propagou por todo o mundo, o indivíduo de cor negra não era reconhecido como elemento de fundamental importância no processo histórico de construção social e nacional, e ainda era cerceado em seus direitos essenciais de cidadão norte-americano, não usufruindo dos mesmos direitos dispensados aos seus compatriotas de pele clara e sem manchas de sangue negro em suas árvores genealógicas, tendo assim que se enquadrar numa ordem social em que havia escolas, restaurantes, cemitérios e igrejas de um tipo para os brancos e de outro para os negros. Essa divisão social determinada pela origem racial colaborava para a manutenção da antiga relação entre o senhor (branco) e o escravo (negro).
Por essa época também estavam em voga as famosas teorias extremamente racistas que tentavam comprovar cientificamente a superioridade da raça branca sobre as demais (principalmente a inferioridade do negro africano frente ao branco europeu), visando camuflar, segundo Kabengele Munanga[4], os objectivos económicos e imperialistas das grandes nações europeias, justificando-se assim a escravização e a colonização dos povos por eles considerados inferiores. Para os defensores dessas teorias (Teoria Poligenista, Darwinismo Social, entre outras), o progresso estaria restrito às sociedades formadas por elementos de raça branca pura, como a ariana, enquanto que os negros, amarelos e miscigenados eram tidos como incivilizáveis e sem a menor possibilidade de desenvolvimento sócio-cultural e científico. Nesse período, segundo Thomas Skidmore “a teoria de que o ariano (ou anglo-saxão) tinha atingido o mais alto grau de civilização e estava, em consequência, destinado, deterministicamente, pela natureza e pela História, a ganhar o crescente controle do mundo – era sustentada por bem elaboradas monografias históricas”[5].
Essas teorias, segundo Jean-Paul Sartre (1974, p.23), “ [...] contribuíram para manter o [falso] humanismo burguês: todos os homens são iguais, excepto os colonizados, que de homem só tinham a aparência [...]”, e serviram para legitimar o discurso colonial que apresentava “o colonizado como uma população de tipos degenerados com base na origem racial de modo a justificar a conquista e estabelecer sistemas de administração e instrução.”[6]
Mas será no período entre as duas grandes guerras que o cenário colonial se vai visualizar a partir de um lado oposto do prisma.

Capítulo II: A África no Período das Guerras Mundiais (1914-1945).
Algumas regiões do continente africano sofreram o impacto das duas guerras mundiais. Do ponto de vista militar as potências beligerantes digladiaram-se em terra africana. Assinalamos aqui as intervenções dos exércitos franceses e britânico no Togo, Camarões, Tanganica e sudoeste africano (Namíbia), então colónias alemães. Nos dois últimos países Portugal interveio por fazerem fronteira com as suas colónias, nomeadamente Angola e Moçambique.
Finda a guerra e por força do tratado de Versalhes, assinado entre potências vencedoras (França e Inglaterra) e os países vencidos (no caso da Alemanha) as suas colónias passaram a tutela dos primeiros. É assim que o Togo passou para a jurisdição francesa, os Camarões foram partilhados entre a França e a Inglaterra, o Tanganica ficou com a Inglaterra, o Rwanda-Urundi ficou com a Bélgica e o sudoeste africano (Namíbia) ficou com a África do sul pelo facto deste país ter colaborado durante a guerra com os vencedores.
Enquanto isso, a II guerra mundial teve um impacto muito grande nas colónias africanas, mas desta vez só no norte de África se fizeram sentir combates entre tropas alemães e as norte-americanas e britânicas. A batalha mais importante foi a de El Alamein, no Egipto, em que as tropas alemães sofreram uma pesada derrota e que ditou a sua retirada do norte de África, particularmente do Egipto, Líbia e Tunísia.

1.1 O papel das duas guerras mundiais no despertar e consolidação do nacionalismo em África.

1.1.1 A primeira guerra mundial (1914-1918).

Os investigadores[7] que analisam o impacto das duas guerras mundiais sobre o despertar do nacionalismo em África consideram que a primeira guerra mundial encerrou um primeiro conjunto de acontecimentos que estremeceu a estrutura do colonialismo mundial. Além disso, pelo artigo 119 do Tratado de Versalhes, de Junho de 1919, foram legalmente reconhecidos os desmoronamentos dos impérios alemão e otomano, cujas possessões passaram a ser divididas entre britânicos e franceses.
A conferência de Paz de Versalhes celebrou as ideias de auto-governo e de democracia de indivíduos iguais, independentes e capazes de se fazerem representar. Paradoxalmente, nos territórios ultramarinos o exercício administrativo-jurídico, articulado a uma teia de crenças e valores, reforçava a existência de indivíduos nações dependentes e incapazes de formular e conduzir projectos políticos-sociais próprios do mundo moderno.
Esse foi o argumento da Sociedade das Nações quando redesenhou o mapa da África instituindo um grande regime de mandato (o qual cedeu lugar ao regime de protectorado só depois da segunda guerra mundial), substituindo a Alemanha pela França e a Inglaterra, no Togo, nos Camarões e no Tanganica; pela África do sul no sudoeste africano (Namíbia), onde a campanha teve longa duração, cujo fecho decisivo foi desempenhado por tropas africanas. Esse processo de substituição ocorreu também no Rwanda-Urundi em que a Bélgica substitui a Alemanha.
No final da I guerra mundial os combatentes africanos regressaram aos seus países de origem mas, passado algum tempo, não viram, da parte da administração colonial, um reconhecimento da sua participação nesse conflito.
É assim que começaram a surgir as manifestações contestatárias, com greves e reivindicações de ordem económica e social que abrangiam desde as privações e exclusões próprias das práticas quotidianas até a não aplicação do decreto de autodeterminação dos povos, tal qual havia sido apresentada nos 14 pontos do presidente americano, Woodrow Wilson, reiterando a ideia básica aprovada já no IIº Congresso Internacional Socialista realizado em Londres, em 1896.
Por sua vez, sob força das circunstâncias, a Inglaterra e a França assinaram, em Novembro de 1918, uma declaração conjunta por meio do qual reconheciam a importância da emancipação dos “povos oprimidos pelos turcos”. Destruiu-se o império Otomano com o reconhecimento da independência a um grupo de países árabes da África setentrional (Egipto, Líbia, Tunísia), enquanto nos demais territórios governados pelas mesmas potências europeias a independência era recusada.
Essa contradição da colonização levou a um inequívoco crescimento dos movimentos nacionalistas. O fim da primeira guerra mundial frustrou a expectativa de reconhecimento do “esforço de guerra” que incluía o cumprimento de promessas da burocracia colonial de resolver necessidades materiais básicas dos africanos com reformas sociais e políticas. O adiamento na resolução dos problemas sociais aumentou a oposição à administração colonial.
Numa análise a respeito, o investigador Ilídio do Amaral considera que:
“Tanto a conferência de Berlim, de 1884-1885, como a primeira guerra mundial, tendo sido assuntos especificamente europeus, impuseram modificações profundas e duráveis nos africanos, de que uma das formas mais visíveis é a partilha de territórios coloniais, os mesmos que, desde meados do século XX, os movimentos independentistas viriam a receber, tentando superar, no interior de fronteiras arbitrariamente traçadas pelas potências coloniais europeias, o enorme desafio da construção do Estado-nação, a partir dos aglomerados complexos de grupos étnicos diversos, muitos dos quais dotados de heranças espaciais ou territoriais, de tradições comuns e de relações de parentesco coesas, de instituições sócio-políticas e recursos económicos partilhados, e por vezes, da aceitação de um controlo político comum, que podem ser considerados atributos do conceito ocidental de “nação”.” [8]

Ilídio do Amaral, num extenso texto apresentado na III reunião Internacional de História de África, em Lisboa, acrescenta:
“Muitos desses soldados, como outros africanos, nomeadamente os europeizados, esperavam que a participação numa guerra que não lhes dizia respeito fosse recompensada com melhorias constitucionais, económicas e sociais nos seus territórios de origem. Não o foram, o que deu azo à radicalização de um anti-colonialismo latente. As elites africanas esperavam que os princípios da auto-determinação (e, de certo modo, a antecipação do principio da nacionalidade) enunciados pelo presidente norte-americano T. W. Wilson em 1918 e outros, também viessem a ser aplicados em África, o que só sucedera passados muitos anos depois da grande guerra mundial de 1939-1945”.[9]

Por outro lado, a guerra colocou os povos africanos em contacto com o carácter instrumental da técnica, sobretudo militar terá sido o de ter posto a nu o carácter desumano dos chamados civilizados. Ora, não havia razão para acreditar que o sistema colonial fosse necessário ou mesmo inevitável para que os indígenas evoluíssem segundo padrões ocidentais. Gradualmente, os africanos tomam consciência da necessidade de assegurarem os seus próprios destinos e de traçar um melhor rumo das suas sociedades, segundo os seus padrões culturais.
As acções levadas a cabo pelos africanos nesse período excluíam a conquista da independência. Reivindicavam um tratamento melhor dentro do sistema colonial. A esse respeito a opinião de Mariane Cornevin é a seguinte:

“O nacionalismo na África ao sul do Shaara antes de 1939 é essencialmente a denúncia do racismo e da injustiça social que resulta da colonização. Para as colónias britânicas existem alguns factores que concorrem para o despertar do nacional-nacionalismo: a releitura da bíblia com a criação das igrejas sincréticas e o Pan-africanismo, enquanto que nas colónias francesas a carta dos Direitos do homem e a Negritude influenciaram profundamente os nacionalistas.”[10]

Como veremos mais adiante as verdadeiras acções a favor da independência serão desencadeadas com o fim da II guerra mundial. Aliás, existem circunstâncias mais favoráveis para os povos africanos exigirem às potências colonizadoras o direito à independência.

1.1.2 Os efeitos da II guerra mundial (1939-1945).

Logo após a II guerra mundial as potências europeias, debilitadas pelos efeitos desse conflito, tentam corrigir os erros do anterior conflito no que diz respeito às possessões coloniais. A França e a Grã-Brentanha adoptam algumas medidas legislativas, nomeadamente a abolição do Estatuto do Indígenas, concedem direitos sindicais aos africanos e autorizam a criação de partidos políticos.
De facto, a II guerra mundial (1939-1945) foi o factor externo que permitiu a consolidação do nacionalismo em África. A participação de africanos nessa guerra permitiu-lhes compreender a natureza do colonialismo e das sociedades europeias. Ki-Zerbo, em História da África Negra, estima que em 1940, só nos territórios sob dominação francesa, foram recrutados 127.320 soldados da chamada “África Ocidental Francesa (AOF), 15500 na África Equatorial Francesa (AEF) e 34.000 em Madagáscar. Desse contingente, 24.271 africanos da África Ocidental e Equatorial, assim como 4.350 malgaxes perderam a vida em combates na Normandia, no Médio Oriente, em África, Itália, Indochina, Birmânia e Alemanha”.[11]
Com efeito, o esforço africano na guerra foi enorme. Pelas estáticas avançadas compreende-se que não houve, da parte das administrações coloniais, o merecido reconhecimento do esforço dos africanos. Cornevin afirma que:
Das 63.000 africanos recrutados nos territórios da África Ocidental Francesa e que combatiam em França em 1940, 24000 morreram logo após o armistício com a Alemanha. Em Agosto de 1945, 60.000 africanos e 16.000 europeus chegaram à África Ocidental Francesa para participar em operações militares na África do Norte, Itália e França (1972:80).[12]
Para Hernandez[13] “outro conjunto de factores teve um peso decisivo para o processo que deu impulso às lutas de independência. O primeiro deles foi que a participação de africanos na primeira guerra mundial se repetiu na segunda guerra mundial quando perto de 190 mil homens estiveram em frentes de batalha (…) ora, a guerra colocou os povos negros em contacto com o carácter instrumental da técnica multiplicidade pela violência exercida pelos povos brancos entre si. Talvez o mais importante legado dessa experiência tenha sido o de ter desnudado a desumanidade dos civilizados. A Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, cujo Estado se tornou modelo para os países africanos, inscreveu a libertação dos povos colonizados como pilar da sua política externa”.
Ali Muzrui[14] enfatiza o papel da França de Charles de Gaulle na transferência gradual do poder aos africanos. Na realidade, logo após a II guerra mundial, a França decidiu a participação dos africanos na vida política, mesmo que essa participação fosse feita nos partidos políticos da metrópole. É assim que em Novembro de 1945, Leopoldo Sedar Senghor e Lamine Guéye (Senegal), Felix Houphouet-Boigny (Costa do Marfim), Apith Sourou Migan (Daomé), Fily Dabo Cissoko (Sudão Francês) e Yacine Diallo (Guine Conacry), foram eleitos para a Assembleia constituinte afim de representarem a África Ocidental Francesa.
Nas colónias sob tutela, no caso dos Camarões, também foram eleitos Alexandre Douala-Manga Bell e L. P. Anjoulet. Ficou de fora a colónia da Argélia, porque os nacionalistas gostariam de ver aprovado um projecto de federação entre a França e a futura República argelina, o que não foi aceite.
Os deputados africanos e a constituição da IV República introduziram mudanças na legislação sobre as colónias.
         A legislação de maior impacto nas colónias foi o decreto de 20 de Fevereiro que suprime o Indigenato; a lei de 11 de Abril sobre a abolição do trabalho forçado; o decreto de 30 de Abril que aplica a África o código penal da metrópole e a lei de 30 de Abril sobre a criação do Fundo de Investimentos e de Desenvolvimento Económico e Social (FIDES).
         Ainda de acordo com Cornevin (1972), dessas quatro leis somente a da abolição do trabalho forçado obteve o acolhimento mais entusiasta das populações africanas, sobretudo nos Camarões e Costa do Marfim onde o recrutamento forçado para as plantações era mais pesado (p.112).
Quatro dessas leis foram votadas antes do referendum de 15 de Maio de 1946. Essas acções legislativas e outras inflectiram no sentido de dar um novo rumo ao processo de descolonização. Aqui, é importante sublinhar que os nacionalistas africanos encontram na Organização das Nações Unidas (ONU) um importante aliado e um bom campo de batalha para reivindicar a independência. Aliás a Carta das Nações unidas defendia o princípio da autodeterminação.
De facto, o fim da II guerra mundial permitiu a organização de campanhas contra a manutenção dos impérios coloniais. 













Capítulo III: A caminho da independência da África.
      
Por varias razões, tanto de ordem histórica como político-constitucional, o movimento de libertação iniciou de maneira especial, pelo menos com, relativamente, mais vigor nas colónias britânicas da África Ocidental. O movimento destemido atingiu, depois – directa ou indirectamente – os territórios sob domínio francês após os quais se difundiu para as colónias da África Oriental pertencentes aos mesmos britânicos.
Quanto as possessões belgas e portuguesas da África negra, estas despertar-se-ão e vão conhecer o mesmo fenómeno com o vento das reivindicações emancipacionistas muito mais tarde além de ter sido palco de lutas mais “bárbaras”.
A luta pela independência, desenvolvida por grupos nacionalistas em diversos países africanos, ganhou força na segunda metade do século XX. O apoio a esses grupos, por parte de Washington e Moscovo, contava pontos na disputa ideológica entre as duas superpotências.
No final da Segunda Guerra Mundial, não havia mais clima político no mundo para a preservação de impérios coloniais. A guerra marcou a derrota do Japão, da Alemanha e da Itália, países que tinham um projecto declaradamente colonialista. A própria criação da Organização das Nações Unidas, a ONU, em Junho de 1945, tinha formalmente, como premissa, assegurar a igualdade entre todos os países do mundo.
Nesse quadro, os impérios coloniais ainda existentes eram uma anomalia, o resquício de um ciclo histórico já ultrapassado. Na realidade, a estrutura da ONU sempre reflectiu a distribuição do poder na Guerra-fria. A composição do Conselho de Segurança é o melhor exemplo disso. Começou com 11 membros, depois ampliados para 15, sendo 5 permanentes e com poder de veto: Estados Unidos, União Soviética, França, Grã-Bretanha e China.
Para a historiadora Maria Helena Senise, “a questão é que os países que realmente venceram a guerra - Estados Unidos, União Soviética, Grã-Bretanha, França e China - vão formar aquilo que se chama, no Conselho de Segurança, de bloco de países com direito a veto. Isso significa que qualquer decisão tomada pelo Conselho pode ser barrada por um desses cinco países. Entretanto, o que significa isso em termos, por exemplo, das regiões que estavam sendo colonizadas? Ficava muito estranho que essas nações todas tivessem lutado contra as nações totalitárias, pela democracia, pela liberdade, e ao mesmo tempo possuíssem colónias. Esse era o caso da França e especialmente da Grã-Bretanha, que possuía um vasto império colonial. Nesse sentido, fica claro que num determinado momento essas potências seriam colocadas em xeque e obrigadas a ceder a independência a todas as suas colónias”.
Apesar do poder de veto, as potências coloniais estavam em declínio, abaladas por duas guerras mundiais e por crises económicas. Em 1947, a Grã-Bretanha foi obrigada a ceder a independência à Índia, sob o impacto de um movimento nacionalista liderado pelo Mahatma Gandhi. Em 1954, foi a vez de a França ser expulsa da Indochina pelos guerrilheiros vietnamitas de Ho Chi Min, encorajados pela vitória comunista na China.
Os sinais de enfraquecimento dos impérios coloniais, somados ao apoio retórico da União Soviética às lutas nacionalistas, estimularam as lideranças africanas a buscar o caminho da independência.
Um dos primeiros projectos foi o do Pan-africanismo, ou a união de todas as nações africanas, formulado pelo líder negro Jomo Kennyata, do Quénia. O principal obstáculo do Pan-africanismo era a diversidade étnica e cultural do continente. Existiam, como ainda existem, muitas "Áfricas" diferentes, impedindo as tentativas de aliança dos países africanos. Essa inexistência de uma "identidade africana" deve-se, em grande parte, ao fato de a África ter sido dominada, dividida e explorada por potências que nunca se preocuparam com os traços culturais daquelas populações.
Uma das raízes mais profundas da dura realidade africana é o mercado de escravos, explorado por árabes e europeus entre os séculos XVI e XIX. Naquele período, mais de 11000.000 de seres humanos foram capturados por portugueses, holandeses, ingleses e franceses, e transportados à força, principalmente para as plantations dos Estados Unidos e para as possessões portuguesas na América.
Encerrado o período esclavagista, no século XIX, as potências coloniais mantiveram o controlo sobre a África, que se tornou fonte de minerais e matéria-prima para a florescente indústria europeia. No processo de colonização, muitas tribos e nações inimigas acabaram unidas à força pelos colonizadores. Por causa disso, as fronteiras dos Estados e regiões reflectiam muito mais os interesses estrangeiros do que a história dos povos locais.
Neste respeito, o  Professor Dr. Carlos Serrano, do  Departamento de Antropologia da USP, comenta: "O tráfico de escravos vai de certa maneira desarticular não só as economias locais mas desorganizar os pequenos reinos, as pequenas formações sociais existentes no litoral do continente, possibilitando futuramente a possibilidade de uma colonização, de uma dominação desses povos. Essa dominação ocorre de uma forma violenta ou estabelecendo fronteiras artificiais, cortando, na maior parte das vezes, segmentos e grupos étnicos. Isso pode ser notado na Conferência de Berlim, onde as principais potências europeias dividem aleatoriamente, segundo seus interesses, o continente africano."
Quando o líder nacionalista Jomo Kennyata falava em Pan-africanismo, ele tinha em vista, provavelmente, muito mais uma estratégia geopolítica do que cultural ou étnica. O objectivo era defender os interesses geopolíticos comuns dos países africanos[15]. Da mesma forma, e também no começo dos anos 50, outro líder nacionalista, o egípcio Gamal Abdel Nasser, defendia um ideal pan-arabista, que centralizasse os interesses do povo árabe. Nos dois casos, do pan-arabismo e do Pan-africanismo, essa unidade serviria de cimento político e ideológico contra os interesses imperialistas.
Foi com esse propósito, de unir os países do Terceiro Mundo, que se realizou a Conferência de Bandung, na Indonésia, em Abril de 1955. A conferência proclamou-se representante dos países não alinhados nem ao bloco soviético nem ao bloco capitalista, mas favoráveis à criação de sociedades igualitárias.
O encontro, convocado pela Indonésia, Mianmar, Sri Lanka, Índia e Paquistão, reuniu 29 países da África e da Ásia. O presidente da Indonésia, Ahmed Sukarno, propôs um compromisso de todas as nações ali presentes de apoio mútuo em casos de agressões de países imperialistas. A Conferência soou como um sinal de alerta para as potências coloniais. Dez anos antes, Sukarno havia liderado o processo de independência da Indonésia, ex-colónia da Holanda. Além disso, em 1954, um ano antes de Bandung, a França havia sido expulsa da Indochina. E, para completar, o pan-arabista Gamal Abdel Nasser havia dirigido, em 52, o processo de independência do Egipto e despontava como líder do norte da África.
Gamal Abdel Nasser, na verdade, era o principal articulador do chamado "pan-arabismo", que propunha a união de todos os países de maioria árabe-muçulmana, como forma de fortalecer a cultura e a causa islâmica frente ao mundo ocidental. Em função da identificação do Egipto com o Islão, o país estava mais próximo do Oriente Médio, do ponto de vista cultural e político, do que dos países da África Negra.
De qualquer forma, o pan-arabismo de Nasser foi de grande importância para a causa pan-africanista, já que as duas iniciativas tinham em comum a luta contra os interesses estrangeiros em seus países. E um dos pilares dessa luta, no caso da África, era exactamente a descolonização do continente.
Outra iniciativa importante para acelerar o processo de descolonização foi a realização, em 1958, da 1ª Conferência dos Povos da África, em Acra, capital de Gana. Na ocasião, os países fecharam um acordo de ajuda mútua contra a Grã-Bretanha, França, Bélgica e Portugal. Àquela altura, a descolonização do continente já estava em andamento.


3.1 O Pan-africanismo e seus precursores.

No final do século XIX surgiu nos Estados Unidos um movimento denominado Pan-africanismo. Esse movimento liderado por intelectuais negros nasceu no período de transição entre o final do comércio negreiro e da escravatura (praticados do século XV ao XIX) e o colonialismo, uma nova forma de dominação imposta pelas nações europeias, principalmente sobre a África, que duraria até às últimas décadas do século XX.
O Pan-africanismo conseguiu unir a raça negra no plano psicológico, criando uma irmandade simbólica entre os negros de todo o mundo, que seria de grande importância no processo de descolonização das colónias europeias em África e na luta dos afro-descendentes contra o preconceito racial.
Assim, define-se por Pan-africanismo como um movimento cultural que visa a igualdade de direitos e a melhoria das condições morais e intelectuais das populações submetidas ao colonialismo.
O termo surgiu, pela primeira vez em 1900, na Conferência de Londres. Inicialmente, tomou a feição duma simples manifestação de solidariedade fraterna entre Africanos e gentes de ascendência africana das Antilhas Britânicas e dos Estados Unidos da América. Serviu-lhe de móbil a discriminação a que eram sujeitos os Negros nos Estados Unidos. A sua longa evolução apareceu como um movimento racial, como um movimento cultural e como um movimento político ou sindical. Ocasiões houveram em que estes três aspectos se confundiram no espírito de alguns dos seus fautores.
3.1.1 Precursores.

O Pan-africanismo foi no início uma forma de manifestar a solidariedade e fraternidade entre os descendentes de escravos africanos, o seu Percursor foi um advogado da Ilha de Trinidade, chamado Sylvester Williams.
Sylvester Williams tomou a iniciativa de organizar, em 1900, em Londres, uma conferência destinada a protestar contra as ocupações arbitrárias de terras ancestrais africanas pelos Europeus, foi nesta conferência que, pela primeira vez se falou em “Pan-africanismo”.
Mas o homem que sistematizou a ideia de Pan-africanismo, foi o Dr. William E. Burghart Dubois, igualmente descendente de escravos, e um dos mais notáveis intelectuais do seu tempo (fim do século XIX e primeira metade do século XX). William Dubois, já fazia parte da primeira burguesia negra, e procurou levar a questão da luta dos negros a nível mundial, e não mais apenas no seu país, e por esta razão, ele é tido como o verdadeiro pai do Pan-africanismo.
Em todos os seus escritos, Dubois advogou o direito dos negros de todo o mundo de viverem como povos livres, e o seu direito à desobediência lá onde estivessem colonizados ou discriminados. Para concretizar as sua ideias, Dubois fundou, em 1908, uma organização chamada NAACP (Associação Nacional para o Avanço ou Progresso dos Povos Negros). Note-se que nesta fundação participaram alguns Brancos Liberais e o primeiro presidente da NAACP foi um branco.
O homem que procurou ir mais além, e popularizou ainda mais o Pan-africanismo foi sem duvida o jamaicano Marcus Garvey, nascido na Jamaica em 1885, e falecido em 1940 em Londres, residindo nos EUA. Marcus Garvey professou um Pan-africanismo agressivo, no sentido em que ele procurou a confrontação com o mundo branco como resposta às discriminações e maus tratos infligidos aos negros. Defendia um racismo ao contrário, e instituições governativas criadas e dirigidas por Negros.
Perante os abusos racistas dos brancos (com linchamentos frequentes de Negros, e exclusões de toda a ordem, ainda vigente no princípio do século XX), Garvey defendia que a força e a violência também deveriam ser as únicas respostas dos Negros. Pois, dizia ele: “a lei foi feita por brancos, a justiça só é para brancos, pelo que a única resposta à discriminação é a força e um contra poder negro, e o não respeito a lei e qualquer crédito à justiça dos brancos”. Assim, ele defendia a criação dos Estados Unidos Negros, com um presidente negro que residiria numa “Casa Negra” (em oposição à “Casa Branca”). Para o efeito, ele vai criar um movimento chamado “ Universal Negro Improvement Association-Associação universal de Melhoria aos  Negro” (UNIA), cujo fim era unificar todos os negros do mundo.
Em Março de 1945, pouco antes do fim da Segunda Guerra Mundial realizou-se um Congresso em Manchester (GB), pelo Dr. William Dubois, que viu a entrada em cena de figuras que iriam marcar os destinos da África: Kwame Nkrumah (Costa de Ouro, actual Ghana), Jomo Kennyata (Kenya), T. R. Makonnem (originário das Guyanas britânicas), e Peter Abrahams (escritor sul-africano), e sobretudo George Padmore.
George Padmore, originário das Antilhas britânicas, terá sido o verdadeiro teórico do Pan-africanismo, foi ele que deu a este movimento um conteúdo e uma forma mais concreta, que iria influenciar as ideias das elites das colónias britânicas. Conselheiro de Kwame Nkrumah enquanto este era Primeiro-ministro (1953-1956) e depois da independência do Ghana (1957), Padmore terá tido uma influência sobre Nkrumah na sua teorização da Unidade Africana.
Foi só depois da independência do Ghana, em 1957, que, sob influência de Padmore e Makonnen, Nkrumah retomou a ideia de Marcus Garvey que consistia numa unidade total da África. Desta feita, o Ghana vai tornar-se o epicentro das duas faces da luta pela independência de África: Por um lado a libertação total do continente da colonização; Por outro lado, a luta pela sua unificação, através da união económica e política, e numa longa fase, numa federação de territórios para o sonho garveynista dos Estados Unidos de África.
Antigo aluno dos missionários, Nkrumah estudou nos EUA ( á partir de 1935 ) onde se licenciou em Sociologia e em Economia Política. Durante este tempo, chegou de ser presidente activo da Associação dos Estantes Africanos naquele país e no Canada. No concernente ás ideias, evoluirá sob a influência de combatentes pelos direitos dos negros como Marcus Garvey (um dos pais do Pan-africanismo). Transferido para Londres, ficara extremamente impressionada pelas ideias do antilhano, lutador pelos direitos dos negros em geral e um outro pai conceptual do movimento pan-africanista. Trata-se de Georges Padmore.
K. Nkrumah assegurou o co-secretariado do 50º Congresso Pan-africano de Manchester de 1945, aquele que foi, cronologicamente, o primeiro a formular sem ambiguidades a exigência de uma independência política imediata e incondicional dos territórios africanos ocupados.
A adesão as ideias do Pan-africanismo, isto é, e em linhas gerais, a defesa dos direitos cívicos de todos os negros (da África, América, Caraíbas) e o respeito das suas qualidades enquanto ser humano não foi difícil para Nkrumah visto que, para além de conhecer a situação em África negra, esteve em contacto com os negro-americanos, viu de perto a atitude dos outros em relação a eles.
Como muitos outros, sentiu na pele o racismo, ou seja a discriminação, a injustiça e os maltrato baseados na única cor da pele. Embora os EUA não possuíssem naquela altura colónias em África, não dispunham ainda de leis suficientes que pudessem defender a parte negra da população dando lhe os mesmos direitos que usufruía a população branca.
Foi também aqui que o Pan-africanismo encontrou, em Nkrumah (Francisco Kwame) o seu militante mais lúcido e mais activo e a Negritude, em Senghor (Leopoldo Sedar) o seu mentor mais célebre. É necessário relembrar, enfim, que será nesta parte que vão ser elaboradas, numa África dominada pelos despotismos, formas de democracia que não colocarão em causa as – muitas vezes – frágeis unidades nacionais e não negligenciarão as tarefas urgentes do desenvolvimento.
Foi assim que diversos movimentos de libertação de África receberam do Ghana, do Egipto, de Marrocos e da Tunísia e mais tarde da Argélia, todo o tipo de ajuda material, e de apoio político e diplomático.
Entretanto, a ideia da Unidade de África seguia caminhos muito mais complexos do que se podia esperar, concretamente, surgiram pelo caminho obstáculos políticos que moderaram o sonho de unidade continental, esses obstáculos foram criados pelas próprias elites africanas.


3.2 A reacção Pan-africana.

Foi contra essa ordem histórico-racial-social que os principais integrantes do movimento Pan-africano se insurgiram, propondo (muitas vezes com ideias divergentes) a união de toda a raça negra contra o preconceito a que estavam submetidos. Conforme Georges Balandier[16], o negro depois de ter sofrido uma fiscalização que negava o valor de sua cultura e sua capacidade de iniciativa, sente uma poderosa necessidade de afirmação, e assim procura fazer-se reconhecer como sujeito da história depois de ter sido durante um longo tempo um instrumento manejado por mãos estranhas.
Segundo Elisa Larkin Nascimento[17], o Pan-africanismo foi a teoria e a prática da unidade essencial do mundo africano, reivindicando a unificação da África e a aliança concreta e progressista com uma diáspora unida.
O movimento era constituído por parte daquele “ [...] número surpreendente de intelectuais negros [...] ” formado nos Estados Unidos, conforme observação feita por António Gramsci[18], e que poderiam, segundo o pensador italiano, exercer (como de fato exerceram) grande influência sobre os negros africanos.
De acordo com Pires Laranjeira (1995), Edward Blyden foi o primeiro a falar de uma african personality em uma conferência em Maio de 1893, tornando-se o iniciador do mito africano (ou recuperação do orgulho da raça). Elisalva Madruga[19] (1998), amparando-se numa citação de Abiola Irele, define a african personality como não só o temperamento do africano mas também, e sobretudo, o fundamento na cultura e na civilização africana, da personalidade colectiva dos negros espalhados por todo o mundo, e afirma que para isso Blyden propunha o retorno à Mãe-África.
Para Willians E. B. Du Bois, considerado o pai do Pan-africanismo, “[...] a afirmação do negro não passa pelo retorno ao continente africano, mas pela integração na vida americana, onde há tempo vivia, contribuindo para seu desenvolvimento.”[20] Desse modo, para ele, o retorno à Mãe-África era apenas simbólico, representando um retorno às origens africanas. Mas, segundo Laranjeira[21], Du Bois ampliaria alguns de seus conceitos ao ser influenciado por algumas ideias de Blyden, que o fariam derivar para um tipo de Pan-africanismo pan-negrista que adoptava “ [...] o reconhecimento da identidade negra, na sua realização nacional, integrada, assimilada à nação (no caso norte-americano), solidária com os africanos ou a restante diáspora fora de África.”[22].
Du Bois foi o organizador dos cinco congressos do Movimento Pan-africano: Paris (1919), Londres (1921), Londres (1923), Nova York (1925) e Manchester (1945). Ainda conforme Pires Laranjeira (Ibid.), Sylvester Willians foi quem lançou a idéia de solidariedade fraterna entre africanos e povos de ascendência africana; seu sobrinho George Padmore foi o responsável pela expansão do movimento em direcção à África e Marcus Garvey foi quem causou mais alvoroço entre a população negra norte-americana, arrastando multidões de seguidores e conquistando o posto de líder do Pan-africanismo frente à opinião pública.
Segundo Maria Carrilho[23], ele “ [...] conseguiria atrair milhares de negros, de Harlem e de todo o país, explicando-lhes que nos Estados Unidos jamais obteriam a igualdade: a terra prometida era uma vez mais a África-Mãe, para onde era preciso partir em conjunto. ” Esse retorno à terra prometida é visto por Salvato Trigo como “ [...] um símbolo de libertação e da morte de todo o sofrimento social [...] ”[24], e por Stuart Hall como uma metáfora em que a história “é representada como teleológica e redentora [...] ”[25], circulando de volta à restauração de seu momento originário, curando toda ruptura e reparando cada fenda através desse retorno.
Ainda em relação a Garvey, Laranjeira[26] acrescenta que, com essa idéia quixotesca, megalomaníaca e demagoga, ele fundou uma companhia de navegação, comprando dois navios velhos, nos quais chegou a transportar alguns negros norte-americanos para a Libéria, na época o único país africano independente. Mas enquanto doutrina, o seu Pan-africanismo não teve saída, embora tivesse sido de grande importância na conscientização dos negros da época. Elisalva Madruga, em conformidade com Maria Carrilho, observa que, ainda que o movimento de Garvey não tenha sobrevivido, “[...] as suas idéias, fundamentadas no pensamento de Blyden, bem como as de Du Bois, ficaram a vibrar como acordes no meio americano e, alguns anos depois, surgirá no Harlem uma nova geração de negros empenhados na reabilitação da raça negra, da qual resultará, por volta dos anos 20 e 30, o Harlem Renascence ou Negro Renascence. Movimento do qual participarão, entre outros poetas, Countee Cullen, Langston Hughes, nomes tão recorrentes na poesia angolana.”[27]
Desse modo, através das ideias por vezes divergentes de seus principais líderes, que se dividiam entre aqueles que propunham um retorno apenas simbólico à África como uma forma de se reencontrar com as origens africanas, e aqueles que propunham um retorno físico de todos os negros em diáspora ao continente africano, mas que comungavam do mesmo sentimento de irmandade da raça negra, o movimento Pan-africano foi o responsável pelo surgimento de diversos movimentos culturais que, ao longo do século XX foram de grande importância para a afirmação da arte negra, principalmente a música e a literatura, bem como para o desenvolvimento de uma conscientização político-social em afro-descendentes e africanos.

3.3 O Congresso Pan-africano de Kumasi (1953).

Com o fim de pôr em execução as resoluções de política de base aprovadas pelo V congresso Pan-africano para a África Ocidental e " harmonizar as relações entre os intelectuais e os elementos da classe operária em Inglaterra de acordo com os princípios enunciados na Delegação do Congresso aos povos coloniais", N. Nkrumah, fora da dependência directa da Federação Pan-africana, organizou em Londres, o grupo dos delegados desta parte do continente africano num "comité" regional, chamado Secretariado Nacional da África Ocidental. Este VI Congresso Pan-africano, pela sua organização, objectivos e resultados, não passou de um feito episódio na marcha do Pan-africanismo político.
Toda a actividade do Pan-africanismo foi criando ao longo dos anos, um Congresso e não só, uma nova mentalidade nos africanos, no que se refere aos seus direitos e à sua dignidade de seres humanos. É a noção dos seus direitos e essa dignidade que gradualmente transformou um movimento de carácter geral em movimento mais restrito a nível das nações africanas.
O nacionalismo africano não deve ser assimilado aos sentimentos chauvinistas[28] que em numerosos Estados europeus conquistaram correntes inteiras da opinião pública e de manifestaram por medidas económicas, por decisões político-militares que vão até ao imperialismo (pan-germanismo, fascismo, etc.), ou por tiradas de desforra nacional. O nacionalismo só se justifica quando um povo se encontra oprimido concentrado nele as diversas forças sociais, também humilhadas e que vivem na esperança.
É o despertar nacional, do ressurgimento duma personalidade que tenta afirmar-se em oposição ao poder estabelecido. O nacionalismo africano principiou com os primeiros antagonismos com os estrangeiros e nunca desapareceu por completo. O período colonial constituiu, no entanto, uma fase histórica, a durante a qual este nacionalismo domesticado ou esmagado só se podia exprimir sob a forma de revolta.
Novas circunstâncias históricas vão-lhe conferir a estatura duma revolução. Em 1940, apenas a Libéria, após a anexação da Etiópia por Mussolini, emerge como ilha perdida numa África Negra totalmente colonizada. Vinte anos depois, em 1963, vinte e nove outros Estados de África atingiram a independência.

3.4 As diferentes Organizações pan-africanas.
3.4.1 O Pan-africanismo sindical.

Certamente que não há quem se admire de ainda não se ter conseguido em África a unidade sindical de todo o continente. Em primeiro lugar, tanto os sindicatos membros da U.S.P.A. como os da C.S.A. são nacionais, traduzindo e sofrendo, portanto, as opções políticas dos seus Governos. Embora sem uma ligação necessária, essencial, talvez não haja unidade sindical sem unidade política do continente africano. Em segundo lugar, tão bem como no campo político, são as grandes forças internacionais que ditam e imperam em África, contra tudo o que se possa pensar.
A U.S.P.A. é de inspiração e mesmo de obediência comunista; obedece à F.S.M.A. A C.S.A. alberga, essencialmente, sindicatos filiados na U.P.T.C. e na ORAF. Em terceiro lugar, e não é ponto para menosprezar, à frente da U.S.P.A. e da C.S.A. estão dois árabes: Ben Seddik, marroquino, e Ahmed Tlili, tunisino. A solidariedade árabe influencia por certo as relações entre as duas centrais pan-africanas. Por outro lado, o pan-arabismo político, de uma banda e o factor religioso, que divide o continente negro numa África muçulmana e numa África cristã, da outra, serão obstáculos à efectivação da unidade sindical Pan-africana.



3.4.2 A conferência Pan-africana das mulheres.
No dia 1 de Agosto, animado baile, no instituto dos Goeses, em Dar-es-Salam, fez esquecer tamanhas tristezas... Por fim, a Conferência votou as resoluções seguintes:
  1. Todos os países independentes do continente têm de boicotar o comércio com a África do Sul;
  2. Todas as mulheres se devem unir, a fim de trazerem maior progresso à África, bem como à sociedade, instrução, educação e socialismo;
  3. Todos os países independentes africanos têm de fazer os possíveis por acabar de vez com o Governo dos Brancos em África;
  4. Todas as nações independentes de África têm que pedir a Portugal e à Grã-Bretanha a entrega dos seus territórios aos próprios nativos;
  5. Os Grupos de Monróvia e de Casablanca têm de se unir.

3.4.3 A União Pan-africana dos jornalistas.

Em Maio de 1961, os jornalistas africanos tiveram a sua primeira conferência em Bamako. Reuniu delgados de nove países: Alto-Volta, Argélia, Camarão, Ghana, Guiné ex-francesa, Mali, Madagáscar, R.A.U. e Togo. Os observadores dos países comunistas eram mais do que os 20 delgados africanos à Conferência. Decidiu ele criar a União Pan-africana dos Jornalistas (U.P.A.J.).
O ex-presidente Kwame Nkrumah preferiu o discurso inaugural. Como o tema principal da Conferência era "o papel da informação e da Imprensa na realização da unidade africana", teve ele oportunidade de desenvolver a sua doutrina tão querida de um Governo continental para a África. A nova União fixou a sua sede em Acra. Deposto Kwame Nkrumah em Fevereiro de 1966, a U.P.A.J. sofreu, necessariamente, os efeitos da alteração política no Ghana.
Em Dezembro de 1964, em Argel, decidiu-se criar um fundo de ajuda aos jornalistas que combatessem " pela sua liberdade nos países africanos" e para estabelecer encontros de treinos em África. Até Março de 1965 parece que nada se adiantou neste campo. Na reunião inaugural da Comissão Educacional e Profissional da U.P.A.J. em Acra nesta data, a segunda ideia voltou à baila. Mas a reunião da Comissão Executiva de Abril seguinte em Bamako pouco frutuosa se revelou.

3.4.4 O Movimento Pan-africano da Juventude.

Bem cedo a Federação Mundial da Juventude Democrática se preocupou com a celebração de uma conferência Pan-africana da Juventude. Fizeram-se representar em Conakry 25 países e territórios africanos, com os grupos radicais na primeira linha. O secretário -geral da organização declarou, no seu discurso, que, apesar do povo africano prosseguirem objectivos idênticos, o Movimento Pan-africano da Juventude não tinha conseguido durante o ano qualquer "sucesso positivo" e que os intentos anticolonialistas e anti-imperialistas não se haviam concretizado.

3.4.5 O Movimento Pan-africano dos Estudantes.

A ideia da realização dum seminário de estudantes africanos para discutir os problemas do colonialismo nasceu no VII Congresso da União Internacional dos Estudantes, celebrado em Leninegrado em 1962. Depressa os Nigerianos deram conta que ele poderia servir par dar um passo no caminho para o movimento estudantil Pan-africano. Assistiram 80 delegados de 30 países e territórios e representantes das diversas "Uniões".O problema da escolha da sede da nova organização foi um dos assuntos mais discutidos. O Movimento Pan-africano dos Estudantes quis permanecer livre de qualquer filiação internacional. No entanto tudo indica que esta União esteja manobrando para o integrar na sua órbita. Ao que parece, os movimentos estudantis estão perdendo terreno em África.

3.4.6 A agência/União Pan-africana de notícias, Rádio e Televisão.

Desde a primeira hora que os países comunistas, sobretudo a U.R.S.S., têm procurado controlá-la, prestando-lhe assistência directa, tanto em instalações como em adestramento do pessoal, mormente na Universidade Patrice Lumumba, de Moscovo. A ideia de uma agência Pan-africana de notícias, já há muito que Nkrumah a trazia em mente.
Foi criada em Maio de 1960, numa reunião em Radat, por delegados do Ghana, Guiné ex-Francesa, Líbia, Marrocos, R.A.U. e Tunísia. A iniciativa da reunião partiu conjuntamente de Marrocos e da Tunísia, «para fortalecer os laços de amizade e de fraternidade entre os povos do continente africano através dos meios audiovisuais». Como é norma, por detrás da ajuda técnica está toda a ideologia política empenhada em moldar os homens ao gosto dum humanismo integral marxista.
        






























CONCLUSÃO

De tudo quanto abordado e em guisa de conclusão, queremos, antes, mancomunar com George Balandier, quando escreve, em sua tese, a situação colonial como a dominação imposta por uma minoria estrangeira, racial e culturalmente diferente, em nome de uma “superioridade racial e cultural” dogmaticamente afirmada, sobre uma maioria nativa, considerada inferior. Em relação a isto, de acordo a declaração das raças e os preconceitos raciais (1978), Paris/UNESCO, afirma-se nas páginas 39, 45-46, que não existe, entre homens, raça pura, no sentido de população geneticamente homogenética. Todos os homens que vivem actualmente pertencem a mesma espécie humana e descendem do mesmo tronco. A divisão da espécie humana em raças é parcialmente arbitrária ou convencional e não implica qualquer hierarquia de qualquer ordem.[29]
No entanto, as potências coloniais ao apossarem-se dos territórios africanos serviram-se de um aparelho ideológico baseado em pseudociências racialistas e pejorativando o homem negro, com o fim de melhor o submeter. Fosse directa ou indirecta o modo de administração empregado pelos colonizadores europeus, assimilação ou associação, todos tiveram um denominador comum e fins semelhantes.
Embora que, para garantir a acção activa das administrações e “civilizar” os povos africanos, as potências coloniais tivessem que lançar mãos a um projecto de instrução, portanto, no seu conjunto, ao empreenderem os sistemas escolares, desaperceberam-se que estes iriam desempenhar um grande papel na história da África; e foi através destes sistemas que emergiram as elites de letrados e de intelectuais que viriam a ser os promotores da idéia de independência.
Para que as independências em África fosse realidade os intelectuais africanos interinos e na diáspora tiveram que lançar mãos á um dos primeiros projectos: o Pan-africanismo, ou a união de todas as nações africanas.
O Pan-africanismo como movimento e precursionado por vários activistas como Sylvester Williams, Dr. William E. Burghart Dubois, Marcus Garvey, Kwame Nkrumah, Jomo Kennyata, T. R. Makonnen, Peter Abrahams, George Padmore e tantos outros, foi, deveras, o movimento de que os povos africanos precisavam para se libertarem das amarras do colonialismo e de sua ideologias racistas.
Africanos no globo e filhos da mãe África, independente de suas nacionalidades, do passaporte que carregam ou de onde moram, mas aqueles que aceitam e reconhecem que seus ancestrais são directamente da África. Estas são pessoas de ascendência africana residentes na África e outros continentes do mundo, seja por migração forçada ou voluntária. Enquanto povo, os africanos sofreram as piores formas de degradação e desumanização.
 O Pan-africanismo tem sido uma das formas de reverter esta condição.
Os objectivos do Pan-africanismo, expressos de variadas formas pelos ideais, tais quais "De volta à África", "Africanos, uni-vos", "Renascença Africana" e "Estados Unidos da África", não foram alcançados. As lutas violentas e não violentas dos africanos no continente e na diáspora contribuíram significantemente para a independência de nações negras do agrúrio da colonização e do apartheid. Novas gerações de pan-africanista estão construindo sobre os ganhos do passado para enfrentar os desafios do presente e do futuro. Existe, portanto, a necessidade de um cuidadoso reexame, documentação, preservação e disseminação das contribuições dos africanos no globo para o desenvolvimento africano.















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[1] Embora seja apontado Silvester Williams como seu criador.
[2] DAVIDSON, B. Mãe negra África: os anos de provação. Trad. António Neves Pedro, Lisboa: Sá da Costa, Luanda: Ministério da Educação da República Popular de Angola, 1981. P.75.
[3] KI-ZERBO, Joseph: História da África Negra, vol. I, 3ª edição, publicações Europa-América, paris, 2002.

[4] MUNANGA, K. Negritude: usos e sentidos. São Paulo, Ática, 1986.
[5] SKIDMORE, T. E. Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. Trad. Raul de Sá Barbosa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, p.68.          
[6] BHABHA, H. K. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998, p.414.     
[7] Hernandez, 2003; Mbokolo; Davidson, 1980; Cornevin, 1972 e Ki-Zerbo, 1990.
[8] AMARAL, 2000, P. 48.
[9] AMARAL, 2000, P. 58.
[10] CORNEVIN, 1972, P.P. 12-13.
[11] KI-ZERBO, Joseph: História da África Negra, volume II, 3ª edição, publicações Europa-América, Paris, 2002, p225.
[12] CORNEVIN, 1972, P. 80.
[13] HERNANDEZ, 2005, P.185.
[14] MUZRUI, 1998, P. 590.
[15] É daqui que nasce, obviamente, a idéia de criação dos Estados Unidos da África.
[16] BALANDIER, G. África ambígua. Buenos Aires: Sur, 1964, P.224-225.
[17] NASCIMENTO, E. L. Pan-africanismo na América do Sul: emergência de uma rebelião negra. Petrópolis: Vozes; São Paulo: IPEAFRO, 1981, P.73.
[18] GRAMSCI, A. Os intelectuais e a organização da cultura. 4 ed. Trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982., P.20.
[19] MADRUGA, E. Nas trilhas da descoberta (repercussão do modernismo brasileiro na literatura angolana). João Pessoa: Universitária/UFPB, 1988.          
[20] MADRUGA, 1998, P.59.
[21] LARANJEIRA, P. A Negritude africana de língua portuguesa. Porto: Afrontamento, 1995.    
[22] LARANJEIRA, 1995, P.51.
[23] Apud MADRUGA, 1998, P.60.
[24] TRIGO, S. Introdução à literatura angolana de expressão portuguesa. Porto: Brasília, 1977, P.103.
[25] HALL, S. Da diáspora: identidade e mediações culturais. Org. Liv Sovik. Trad. Adelaine la Guardiã Resende [et. al.] Belo Horizonte: UFMG; Brasília: UNESCO, 2003, P.29.
[26] Apud LARANJEIRA, 1995.
[27] MADRUGA, 1998, P.60.

[28] Nacionalismo exagerado.
[29] ANTOINE, Yves: “Inventores e Sábios Negros”, Editora Nzila, Luanda, 2009, p. 15.


Por Domingos Segredo Manuel, licenciando em Ciências da Educação - História

3 comentários:

  1. Meu nome é Ronaldo Silva, professor de História no Brasil na cidade do Rio de Janeiro. Estou realizando pesquisa, estudo e um trabalho acadêmico sobre o tema. Parabéns pelo seu belíssimo trabalho e disponibilidade em contribuir em minhas pesquisas, gostaria de trocar assuntos com você se for possível. Meu endereço eletrônico é: madiba@hotmail.com.br

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  2. o pan-africanismo teve uma grande impacto para os países africamo visando os movimentos de libertação da epoca.

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