quarta-feira, 1 de Agosto de 2012

AS PARTILHAS DA POLONIA



INTRODUÇAO

Napoleão disse, certa vez, que geografia é destino. Com isso, ele queria enfatizar que os países e os povos têm sua existência e cultura determinada pela situação que ocupam no mapa geopolítico do continente a que pertencem. A nenhum outro país europeu aplica-se melhor isto do que à Polónia, nação eslava situada na Europa do Leste, fronteira entre dois mundos hostis. Estas palavras de Napoleão são confirmadas por Jean-Jacques Rousseau ao afirmar: “A Polónia é um grande Estado cercado de Estados ainda maiores e que possuem uma grande força ofensiva devida ao despotismo e à disciplina militar”.[1]
Hoje a Polónia é uma área um pouco superior a 300 mil km², coube à terra de Copérnico ficar numa espécie de limbo geopolítico, sempre ameaçado de ser assaltado por qualquer um dos pontos cardeais que a cercam. A Polónia, por igual, separa dois mundos culturais, étnicos e religiosos muito distintos: o germano e o eslavo. Ao seu oeste e ao norte, território das antigas tribos germânicas, encontram-se os prussianos, os saxões e os suecos de fé luterana, ao sul, os austríacos católicos. Ao leste, habitam os russos de fé cristã ortodoxa. Para agravar sua delicada posição estratégica, a partir do século XVI, ao sul avolumou-se a presença do Império Turco Otomano.
Assim, foi esta situação geográfica, fragilizada ainda mais por ser um país de extensas planícies, destituído de protecções naturais, que modelou a vida e a história da Polónia nos últimos séculos.
Quando seus vizinhos estavam em paz entre si, tendiam a partilhar o território polaco entre eles; quando estavam em guerra, faziam-na sobre as terras polonesas. Historiadores apontam como um factor que realçou a debilidade política do reino polaco o fato da Szlachta[2], a nobreza local não ter jamais aceitado a existência de um sistema centralizado, algum tipo de monarquia absolutista como a que vingou na França, na Espanha e em outros países europeus a partir do século XVI, que, entre outras coisas, mostrou-se um instrumento eficaz na defesa do Estado-Nacional em construção.
Na execução deste trabalho fomos levados a fazer as seguintes questões: o que era a Polónia antes das partilhas? Que motivos levaram os países vizinhos partilharem os territórios da Polónia?
Todavia, para a execução deste trabalho tivemos que dividi-lo em dois capítulos. No primeiro capítulo fizemos uma análise, em termos gerais, no período polaco antes das partilhas, desde a primeira República nobiliária, constituída através do tratado de 1569 entre a Polónia e a Lituânia, República esta que se denominou, também, República dos dois povos; o desenvolvimento cultural polaco; até as ameaças dos países vizinhos e a consequente decadência do Estado no princípio da segunda metade do século XVIII.
No segundo capítulo fizemos uma abordagem descritiva das guerras travadas nos territórios polacos, as quais resultaram em partilhas e assenhoreadas por nações vizinhas. Outro aspecto não menos importante tem que ver com as revoltas de povos polacos contra a imposição estrangeira e para da liberdade nacional.
Ora, uma vez desconhecida pela maioria a história da Polónia e dos polacos, esse trabalho mostra-nos um certo interesse na medida em que, fica bem patente o verdadeiro épico que foi a história dos poloneses em direcção à liberdade e a independência política, somente há pouco alcançada.
O principal objectivo deste trabalho é analisar as causas que levaram as sucessivas divisões do território polaco e avaliar o impacto dimensional das consequências das mesmas na vida social, económica e geopolítica da Polónia.
As metodologias e técnicas utilizadas para a elaboração deste trabalho foram as técnicas de pesquisa bibliografia, e ainda utilização do método histórico. Utilizamos, também, o método comparativo devido as análises de autores que teceram diferentes abordagem acerca do assunto em estudo.
Retornando ao tema central como nosso campo de análise, gostaríamos de afirmar que no trabalho que aqui apresentamos não pretendemos abordar toda história das partilhas da Polónia, importa apenas salientar alguns aspectos gerais na medida em que esta referência nos poderá ajudar a compreender a visão do colonialismo sobre colonizado.


 CAPÍTULO I: A FORMAÇÃO DA PRIMEIRA REPÚBLICA (NOBILIÁRIA) 
                         E O DESENVOLVIMENTO DO SÉCULO ÁUREO POLACO.

A inexistência de um sistema centralizado, algum tipo de monarquia absolutista, permitiu a adopção do princípio do liberum veto[3]pela Sejm (Assembleia da Nobreza), a partir de 1652, implicava que qualquer integrante da instituição, lançando mão do poder de veto, podia paralisar o poder executivo. Deste modo, ao enfraquecer o braço do rei, pouca coisa podia esperar-se de ele ser eficaz em realizar uma boa guarda das fronteiras nacionais. No corpo político polonés daqueles tempos, como inúmeros tratadistas constataram, os membros paralisavam a cabeça. Isso promovia a institucionalização da anarquia e não da liberdade.
Todavia, a ausência de um estado forte não foi impedimento para que a união entre o reino da Polónia e o grão-ducado da Lituânia, abarcando então vastas extensões de terra da Ucrânia, fizesse desta aliança o segundo reino mais extenso da Europa; tal situação durou por quase um século (dos 1.140 mil km² que possuía na ocasião viu-se reduzida a 990 mil km², em 1634).
O acordo polaco-lituano, resultado do Tratado de Lublin, de 1569, foi denominado de Rzeczpospolita Obojga Narodów–também conhecido como a República dos Dois Povos – estendeu-se por quase um século, naufragando definitivamente em 1795.
A aproximação entre poloneses e lituanos, surgida devido à ameaça de expansão do Czarado de Ivan, o Terrível, foi selada por uma coroa em comum encabeçada por um monarca escolhido pela Electio Viritim, um processo de eleição do rei feita nos moldes do sistema praticado pelo Sacro Império Romano-Germano, havendo ainda a presença activa do Sejm, com poderes ressaltados.
O senado (composto por 81 bispos e demais dignitários) e a assembleia (formada por 54 posels, deputados representantes dos sejmiks, comarcas locais) tornaram-se árbitros dos destinos dos reis poloneses, impedindo a formação de um estado forte (sem que o regime polonês evoluísse para uma monarquia parlamentar de molde ocidental).
O rei, ainda que bem pouca autoridade de fato exercesse, tinha o atributo de distribuir os cargos e as funções públicas como compensações aos serviços prestados ao estado, as ditas panis bene meritorum(a distribuição do pão merecido), que mesmo não sendo remunerados, resultavam na extracção de bons rendimentos aos seus dignitários.
O promissor século XV foi a preparação para o século XVI, que na história da Polónia é chamado “o século áureo”. A área da Polónia e da Lituânia era na época de cerca de 815 km2 e a população de cerca de 8 milhões de habitantes. Os camponeses constituíam cerca de 67% da população, os citadinos cerca de 23% e a nobreza, juntamente com o clero, cerca de 10%.
A exportação de cereais e o saldo positivo comercial asseguravam à Polónia bem-estar e significativo crescimento demográfico. Na esfera politica foi um período de potência e de ausência de ameaças. As poucas guerras foram levadas a cabo apenas nas periferias da Polónia e da Lituânia. Por sua vez, na cultura foi o século da Renascença e do desenvolvimento da literatura em língua polaca. O seu alto nível de ensino permitiu à nobreza chegar ao poder e criar uma forma de sistema tipicamente polaca – a República nobiliária.
As influências da cultura renascentista chegaram à Polónia a partir das últimas décadas do século XV. Nisso influíram as viagens da juventude para os estudos, os contactos diplomáticos, dinásticos e comerciais.
No século XVI teve lugar um particular desenvolvimento da renascença polaca. As bases da mesma foram criadas pelo grupo relativamente numeroso de compradores de obras artísticas, composto da nobreza culta e da burguesia, bem como do mecenato real, episcopal e dos magnatas.
O centro da cultura polaca era Cracóvia, por causa da sua corte real, Universidade, do meio dos tipógrafos cracovianos, dos atelieres (oficina) de cultura e arquitectura aí existentes. Esta renascença irradiando por todo o país, desenvolveu-se sob influência italiana.
A renascença polaca foi evidente, também, na literatura[4], na ciência[5] e na tolerância religiosa[6].
Os privilégios que a nobreza obteve nos séculos XIV e XV foram estendidos à nobreza lituana, como também aos senhores feudais ortodoxos da parte russa do Grão- Ducado Lituano. Foi um fenómeno de grande significado para a configuração de um homogéneo – sob o ponto de vista dos direitos e aspirações – grupo social, composto de pessoas de diferentes religiões e idiomas. A unidade política da nobreza e a sua actuação comum em favor da conquista do poder dominaram sobre as divisões regionais, étnicas e religiosas.
 Entre os privilégios nobiliários decisivos para a configuração do novo sistema estatal encontravam-se os privilégios de Nieszawa, que era a obrigação do rei de ouvir as opiniões da nobreza e obter a sua aprovação para a cobrança de impostos e para a condução de guerras, o que implicava a necessidade do envio de funcionários reais às Assembleias regionais (pequenos parlamentos) da nobreza.
Dada a longa duração de tais práticas consultivas estabeleceu-se, no século XV, a prática de envio de deputados dos parlamentos regionais a uma assembleia nacional, em que participavam, além dos deputados, o conselho real e o próprio monarca. Assim se formou, em 1493, o parlamento geral composta de duas câmaras[7], comum para ambos os Estados da Polónia e da Lituânia.
A partir do final do século XV até os anos sessenta do século XVI desenvolveu-se uma luta pelo poder entre a alta nobreza (magnatas) e a nobreza comum.
Após o desaparecimento da Dinastia dos jagellons em 1572, a nobreza criou confederações regionais, defendendo a ordem estatal. Desenrolava-se o litígio sobre a forma de eleição – unicamente através do senado ou através de toda a assembleia. Jan Zamoyski, líder do agrupamento da nobreza lançou o lema da chamada eleição livre, efectuada pessoalmente por cada nobre presente nos debates.
A assembleia convocatória de 1573 aprovou essa solução, como também a acta da chamada confederação varsoviana, que introduzia a tolerância religiosa e a proibição de guerras religiosas. Uma vez que a paz e a tolerância religiosa eram um fenómeno incomum na Europa abalada pelas guerras religiosas. Desta feita, reis estrangeiros começaram a serem eleitos para ocupar o trono em Cracóvia (então cidade sede do reino).
A primeira eleição livre teve lugar em 1573. A nobreza elegeu para rei Henrique de Valois. Foram-lhe apresentados para juramentar os chamados Artigos Henriquinos, que definiam os princípios do sistema social da Polónia e da Lituânia.
O futuro rei teve que renunciar da sucessão do trono e reconhecer o princípio da eleição livre, as prerrogativas da assembleia, o direito do senado em controlar a política externa, jurando tolerância religiosa. No caso da violação dessas leis, a nobreza tinha a possibilidade de recusar obediência ao rei.
Henrique de Valois reinou por curto período, pois em 1574, face à notícia da vacância do trono francês, fugiu da Polónia. Para seu sucessor foi eleito o príncipe da Transilvânia, Estêvão Barthori (1576-1586). Este renunciou de suas prerrogativas judiciais face à nobreza. Em lugar do tribunal real foram criados os tribunais de recursos, em que os juízes eram eleitos pela nobreza.
Entretanto, o tribunal real foi mantido para questões particularmente importantes, e as suas reuniões tinham lugar em presença da assembleia.
As reformas jurídicas de Estêvão Barthori terminaram na formação do sistema estatal da Polónia e da Lituânia como monarquia e, ao mesmo tempo, como República nobiliária.
A igualdade de direito de toda a nobreza, as prerrogativas da assembleia, o controlo estendido sobre o poder real, a tolerância religiosa – constituíram as bases desta democracia fidalga. Este era um sistema original, atraente, assegurando à nobreza direitos cívicos, completamente distinto dos sistemas políticos absolutos dominantes na Europa.
Aproveitando a conjuntura económica e ocupada com as questões da luta pelo poder, a nobreza era contrária à condução de guerras. Entretanto, a partir do final do século XV a lituânia lutava contra a expansão do Principado Moscovita e nessas lutas sofreu significativas perdas territoriais. A constante pressão moscovita estreitou a união polaco-lituana.

1.1 A POLÓNIA FACE ÀS AMEAÇAS E
A CRISE DO SISTEMA ESTATAL.

Já no final do século XVI surgiram ameaças à República, que aumentaram à medida do passar do século XVII. A correlação das forças internacionais não era favorável à Polónia e à Lituânia. Pois a Suécia em potência crescente, lutava pelo domínio no báltico e nos seus litorais, o que tinha que levar ao embate com a Polónia. A Rússia realizava o seu programa de dominação de todas as terras e povos ortodoxos – o que a colocava em conflito com a Lituânia e com a Coroa. A Turquia, após a conquista da Hungria, dirigia a expansão, entre outras, para as áreas do sul da República. Estas eram também objectos de invasões tártaras com o fim de pilhagem.
Rivalizando com a República pela dominação na Europa Central, porém enfraquecidos pela guerra de trinta anos, os Habsburgos não eram aliados seguros. No limiar dos séculos XVI e XVII a abastada República encontrava ainda bastante forças para fazer frente a essas ameaças, inclusive para tentar a expansão.
No decorrer do longo reinado de Sigismundo III (1587-1632), originário da dinastia sueca dos Vasas, extinguiam-se gradualmente as tendências desenvolvimentistas na economia e as aspirações reformadoras da nobreza. Contudo aumentava o temor da mesma face ao absolutismo do poder real. A política do monarca, indo nessa direcção, foi detida pela revolta armada da nobreza chamada revolta de Zebrzydowski.
O grupo dos magnatas, interessado pela expansão em direcção leste, tentou aproveitar a desordem no Grão-Ducado Moscovita, após a extinção da dinastia dos Rurikowisczs aí reinante. Isso levou a República à guerra com a Rússia.
Após a vitória decisiva do comandante Stanislaw Zólkiewski nas cercanias Kluszyn em 1610, o exército polaco entrou em Moscovo. Entretanto, isso durou pouco, porque tive fim a desordem no Grão-Ducado Moscovita com a eleição á czar, Miguel Romanov, que deu início à nova dinastia russa. A suspensão da guerra deu-se em 1619 e deixou à República a cidade de Smolensk, o que foi validado pela paz de Polanów no ano de 1634.
Na guerra com a Turquia (1620-1621) pela parte polaca distinguiram-se os destacamentos dos cossacos[8]. Os poderes estatais não estavam em condições de controlar as actividades dos cossacos.
Em 1648 eclodiu a grande revolta dos cossacos, encabeçada por Bohdan Chmielnicki. Aliaram-se a eles os camponeses da Ucrânia, e a revolta transformou-se em insurreição social e nacional contra o poder polaco. Esta desequilibrou as bases da República, cujas camadas governantes não foram capazes de solucionar o problema cossaco e ucraniano dentro do espírito das soluções polaco-lituanas, não se tendo decido por reconhecer à Ucrânia os direitos de terceiro membro da República. Como obstáculo ergueram-se os interesses dos magnatas, cujos latifúndios se encontravam justamente na Ucrânia, bem como os conflitos religiosos e étnicos.
 O rei João Casimiro (1648-1668) tentou pertratar com Bohdan Chmielnicki, cujo exército chegou até as cercanias de Lvov, devastando as terras conquistadas, matando os membros da nobreza e assassinando a população judia nas cidades. Os cossacos hesitaram quanto à sua política, e concluíram alianças com a Turquia, Polónia e Rússia, dependendo da conjuntura.
Em 1654, no chamado Conselho de Perejaslaw, os cossacos puseram-se sob a protecção de Moscovo. Dois exércitos russos penetraram profundamente nos territórios da enfraquecida República. Nessa situação extremamente perigosa, caiu sobre a República a invasão sueca em 1655.
No decorrer de alguns meses os exércitos suecos ocuparam a maioria dos territórios polacos, além dos que foram ocupados pelos exércitos russos. Cracóvia e Varsóvia caíram nas mãos destes, embora fosse defendida por Stefan Czarnieck. Apenas Gdansk rebateu eficazmente os suecos. O rei Casimiro fugiu da Polónia para Silésia.
A derrota inesperada da República abalou tão profundamente a correlação de forças na Europa Centro-Leste e Norte que a polónia recebeu ajuda do Império Alemão, enquanto a Rússia suspendeu as acções bélicas.
Mas na própria República que os suecos trataram como troféu militar e pilharam desapiedadamente, aumentava a resistência armada. A nobreza, os citadinos e, pela primeira vez em tal escala na história polaca, também os camponeses, organizaram destacamentos guerrilheiros.
Em Novembro e Dezembro de 1655, os suecos cercaram Jasna Góra (a montanha clara)[9]. Sua defesa bem sucedida tornou-se a divisa para uma resistência mais forte. O rei João retornou ao país. A maior fama como comandante conquistou Stefan Czarnieck.
Os suecos foram expulsos da Polónia. Em Maio de 1660 foi assinada a paz polaco-sueca em Oliwa, dentro do princípio do status quo de antes da guerra. Foram derrotados também os cossacos. Por força do armistício em Andruszów (1667), a Rússia obteve Smolensk, a Ucrânia da margem esquerda e – por dois anos – Kiev. Essas condições, ficando Kiev para a Rússia, foram confirmadas pela paz de 1686.
A República que teve também de lutar contra as invasões turcas (1672-1673), concluiu alianças com os Habsburgos. Quando em 1683 o potente exército turco cercou Viena, a capital do Império foi libertada graças ao socorro polaco. Os exércitos unidos dos aliados foram comandados pelo rei João III Sobieski (1674-1696).
Portanto, a maioria das longas guerras da segunda metade do século XVII foram travadas no território da Polónia e Lituânia. A República rechaçou as invasões com grande esforço. Saiu, contudo, das guerras extremamente arruinada e despovoada. As guerras foram acompanhadas de epidemias e fome. Em resultado a população, que antes de 1654 era de cerca de 10 milhões de habitantes, no final do século diminuiu para 6 milhões. Diminuiu também a exportação, a moeda perdeu valore a reconstrução da economia acontecia de forma extremamente lenta. 
A crise atingiu também a organização política do Estado. A posição da nobreza no Estado enfraqueceu devido ao seu empobrecimento e à perda da independência. Aproveitando o sistema de clientela, os magnatas obtiveram supremacia. A assembleia foi enfraquecida pela aplicação do “liberum veto”. As constituições parlamentares eram aprovadas ordinariamente com a concordância de todos os deputados, mas a partir da metade do século XVII a minoria submetia-se a maioria.
Em 1652 foi pela primeira vez reconhecido que a importância da vontade da maioria à pelo menos um deputado constituía uma violação da liberdade. Assim, a assembleia podia ser rompida pela objecção de um deputado.
Dentro de curto prazo o liberum veto tornou-se instrumento para o agrupamentos de magnatas que se rivalizavam entre si e mais tarde também para as influências estrangeiras. Face à paralização da Dieta, as assembleias locais assumiram o papel daquela. Isso trouxe a descentralização do Estado.


1.2. TENTATIVAS DE REFORMAS E
A DECADÊNCIA DO ESTADO.

O começo do século XVIII foi o período da mais profunda decadência da República. No reinado de Augusto II, o Poderoso (1697-1733), na época da guerra chamado do Norte, a Polónia foi campo passivo de batalhas de exércitos estrangeiros, e até o trono real se tornou objecto de competição internacional.
As monarquias vizinhas centralizadas e absolutas ampliaram os seus exércitos; a Rússia dispunha de 330 mil soldados, a Prússia e a Áustria cerca de 150 mil soldados cada uma. A nobreza, inconsciente da situação ameaçadora, estava convencida de que, como a República na ameaçava a ninguém com o seu exército de 24 mil soldados, então não seria alvo de agressão.
Na política interna a nobreza vigiava a sua “liberdade douradura”, não compreendendo que o desorganizado sistema político já não lhe assegurava a liberdade.
A actividade reformadora encontrou dois obstáculos difíceis de serem superados. O primeiro era a política das potências vizinhas, que viam seu interesse na preservação da inércia política na república. O segundo era a ignorância de grande parte da nobreza e a aversão aos sacrifícios materiais e políticos.
Por esse motivo a preparação das reformas exigia a educação duma geração abnegada e culta, livre de preconceitos e ilusões. Assim, em 1740 Stanislaw Konarski abriu em Varsóvia, para a juventude nobre, uma escola moderna, conhecida como Colegium Nobilium. Posteriormente numerosas escolas administradas pelos monges piedosos (Ordem dos Cléricos Regulares de Nossa Senhora das Escolas Piedosas) basearam-se na mesma.
Quando em 1763 faleceu Augusto III, o agrupamento dos Tchartoryskis que governava a Polónia acordou com a Rússia a candidatura de Estanilslau Augusto Poniatowski (1764-1795). Os primeiros anos de seu reinado foram ocupados pelas reformas militares e financeiras.
Em 1765 o rei criou a Escola dos Nobres, na qual se formaram grandes líderes polacos como T. Kosciuszko, J. Jasinski e U. Niemcewicz. Assim surgiu a nobreza revista conhecida como “Monitor”. Foram criadas manufacturas, foi ordenada a administração urbana.
Entretanto, essas reformas defrontaram-se com a oposição da Czarina Catarina II. A assembleia de 1768, sob pressão dos exércitos russos, aprovou as chamadas leis cardeais: existência de eleição livre, do liberum veto, do direito à revolução contra o rei e o monopólio da nobreza sobre a actividade política. Essas leis seriam garantidas pela czarina Catarina II. Isso significava que nenhuma reforma a partir de então seria possível sem o consentimento da Rússia.
A brutalidade da intervenção russa provocou a resistência armada da nobreza, que criou uma confederação em Bar. As lutas – de carácter guerrilheiro – duraram 4 anos.



CAPÍTULO II: AS PARTILHAS DA POLÓNIA.

2.1 A PRIMEIRA PARTILHA DA POLÓNIA.
                              
A política russa em relação à república defrontou-se com um dilema: ou a manutenção do domínio da Rússia sobre toda a República ou o assentimento às contínuas proposições da Prússia, quanto a partilha da Polónia. A Rússia era o mais potente dos vizinhos da República e a decisão encontrava-se nas mãos de Catarina II.
Se resignava do domínio indivisível sobre a Polónia e Lituânia dependentes, era por temer o renascimento da República. Não eram temores sem fundamentos. Antes de 1772, a República ocupava uma área de 733 Km2, a sua população era de cerca de 14 mil habitantes e a densidade demográfica de 19,1 habitantes por Km2. Em contraste a população da Rússia montava a 29 milhões de habitantes o que face à sua enorme área dava 5,5 habitantes por Km2. A população da Áustria, juntamente com a Boémia e a Hungria, era de cerca 18 milhões de habitantes, por sua vez a Prússia contava com 2,5 milhões de habitantes.
Assim, a República era um país de significativos potenciais e possibilidades, que após reformas eficazmente conduzidas poderia jogar um papel autónomo na Europa Centro-Leste. O entendimento das três potências às custas da débil República foi alcançado em 1772.
Já em 1770 e 1771, a Áustria e a Prússia tinham tomado alguns territórios fronteiriços da Comunidade polaco-lituana, com a Áustria tomando o condado de Szepes e a Prússia incorporando Lauenburg e Bütow. Em 19 de Fevereiro de 1772, o acordo da partilha foi assinado em Viena. Um acordo prévio entre Prússia e Rússia foi feito em São Petersburgo em 6 de Fevereiro de 1992.
No começo de Agosto, tropas austríacas, prussianas e russas invadiram simultaneamente territórios da Comunidade polaco-lituana e ocuparam os territórios acordados no acordo feito em 5 de Agosto.
Os regimentos da Confederação de Bar, cujo corpo executivo havia sido forçado a deixar a Áustria (país que havia dado apoio à confederação anteriormente) depois que o país ingressou na aliança russo-prussiana, não deixaram suas armas. Muitos fortes sob seu comando continuaram a lutar pelo maior tempo possível; o Castelo de Wavel em Cracóvia caiu apenas no final de Abril; a Fortaleza de Tyniec continuou segura até Julho; Częstochowa, comandada por Kazimierz Pułaski, conseguiu lutar até o final de Agosto. No final, a Confederação de Bar foi derrotada, e seus membros fugiram ou foram deportados para a Sibéria pelos russos.
O tratado da partilha foi ratificado por seu signatários em 22 de Setembro de 1772 e representou um grane sucesso para Frederico II: o território ganho pela Prússia pode ter sido o menor, mas era significativamente relevante e importante dos pontos de vista estratégico e geopolítico. A Prússia ganhou a maior parte da Prússia Real, o que permitiu a Frederico unir a Prússia Oriental com Brandemburgo. A Prússia também anexou áreas do norte da Grande Polónia, seguindo o curso do rio Noteć (o distrito de Netze) e a Kuyavia, mas não as cidades de Danzig (também conhecida como Gdansk).
 Os territórios incorporados tornaram-se uma nova província em 1773, conhecida como Prússia Ocidental. No total, a Prússia ganhou 36.000 km² e aproximadamente 600.000 novos habitantes. Também conseguiu cortar o acesso da Polónia ao mar e assim ganhar o controle de 80% do comércio exterior da Comunidade polaco-lituana, e com tão enormes custos, o reino prussiano acabou por acelerar o inevitável colapso da Polónia-Lituânia.
Apesar do criticismo da Imperatriz Maria Teresa sobre a partilha, o diplomata austríaco Wenzel Anton Graf Kaunitz considerou a porção recebida pela coroa austríaca como uma ampla compensação; apesar de a Áustria ser a potência menos interessada na partilha, ela recebeu a maior parte da população polaca das áreas ocupadas e a segunda maior porção de terras (83.000 km² e 2.650.000 de novos habitantes). Pertenciam à Áustria as cidades Zator e Auschwitz, parte da Pequena Polónia e dos condados de Cracóvia e Sandomierz (com as ricas minas de sal de Bochnia e Wieliczka) e toda a Galícia, excepto pela cidade de Cracóvia.
A Rússia recebeu a maior área da Polónia, no nordeste, porém, menos importante em aspectos económicos. Com este "documento diplomático", a Rússia recebeu territórios ao leste de uma linha que passava pelos rios Dvina, Drut e Dnieper. No total, a monarquia russa ganhou 92.000 km² de território e 1.300.000 de habitantes.
Com a primeira partilha, a Comunidade polaco-lituana perdeu aproximadamente 211.000 km² de área (30% de seu território, que até então somava cerca de 733.000 km²) e uma população de quatro a cinco milhões de pessoas (aproximadamente um terço de sua população de catorze milhões de habitantes antes das partilhas).
Após ocupar seus respectivos territórios, as três potências exigiram que o rei Stanisław August Poniatowski e a Sejm aprovassem suas acções. O rei apelou às nações da Europa Ocidental por ajuda, e tentou atrasar a convocação da Sejm. Os outros poderes europeus olhando a partilha com relativa indiferença, e apenas poucas vozes – como Edmund Burke – se levantaram contra as potências orientais.
Quando ficou claro que nenhuma ajuda estava a caminho e os exércitos das nações aliadas ocuparam Varsóvia para forçar pelas armas a reunião da assembleia, não houve mais nenhuma alternativa a não ser a submissão.
Os senadores que se rebelaram contra as potências foram ameaçados pelos russos, representados pelo embaixador Otto von Stackelberg, que declarou que em caso de recusa, a capital inteira seria destruída. Outras ameaças incluíram execução, confisco de bens e mais ganhos territoriais; alguns senadores foram capturados pelos russos e exilados na Sibéria.
As assembleias locais (Sejmiks) se recusaram a eleger delegados para a Sejm, e depois de grandes dificuldades, menos da metade dos membros regulares compareceram à reunião liderada por Michał Hieronim Radziwiłł e Adam Poniński; o último, em particular, era um nobre polaco que havia sido comprado pelos russos e seguia suas ordens.
Assim, a Primeira Partilha da Polónia, também conhecida como Primeira Partilha da Comunidade polaco-lituana, ocorrida em 1772, foi a primeira das três partilhas que acabou por pôr fim à Comunidade polaco-lituana em 1795. A primeira partilha realizada entre o Império Russo, o Reino da Prússia e o Arquiducado Austríaco, e que foi ratificada pelo parlamento polaco (sejm) em 1773.

2.2 A ECLOSÃO DA SEGUNDA E
TERCEIRA PARTILHA DA POLÓNIA.

O choque da primeira partilha bem como os processos do desenvolvimento económico e demográfico tiraram a sociedade polaca do letargo. Somaram-se também os resultados do trabalho educacionais, da publicística, da literatura política – começou a actuar uma geração de polacos melhor preparados e capazes de sacrifícios. A activação das cidades e da burguesia culta incluiu esse grupo social na vida política do país.
A comissão de Educação nacional, criada em 1773, introduziu nas escolas manuais modernos, pôs as escolas sob a direcção das Universidades Reformadas. As ideias da Ilustração, juntamente com as ideias patrióticas e reformadoras foram popularizadas pela imprensa, literatura, teatro, pintura, música e historiografia. O centro da cultura tornou-se Varsóvia com os seus cem mil habitantes, o Teatro Nacional conduzido por Wojciech Boguslawski, as redacções das revistas, as bibliotecas, e a corte real. O desejo de reformas tornou-se geral. Entretanto, a sua realização dependia do consentimento da Rússia – garantidora do sistema da República.
 Quando eclodiu a guerra da Rússia com a Turquia, o rei Estanislau Augusto obteve o consentimento da czarina Catarina II para a convocação da Dieta nas condições de confederação (isto é, sem o liberum veto) e para o aumento do número dos efectivos do exército.
Na atmosfera de grande emoção política, a Dieta de 4 anos, denominada Grande (1788-1792) aprovou a lei das cidades reais, aumentando as prerrogativas políticas da burguesia, rompeu as garantias russas, concluiu aliança com a Prússia e, como resultado de trabalhos de muitos anos, aprovou a Constituição de 3 de Maio de 1791, a segunda constituição no mundo, após a dos Estados Unidos da América e a primeira na Europa.
As suas determinações previam o fortalecimento do poder real e a hereditariedade do mesmo, a reorganização do governo, o aperfeiçoamento do trabalho da Dieta, com a preservação das liberdades civis da nobreza – nobres proprietários, abarcando com as mesmas parte da burguesia.
Foi liquidada a divisão do Estado na coroa e Lituânia, com isso foi unificado o sistema político. Os governos baseados na Constituição dispunham de todas as chances de tirar o país da crise política.
A Constituição provocou a oposição decidida da Rússia. Sob a sua influência alguns magnatas – traidores para a defesa do antigo sistema – estabeleceram confederação em Targowica. A Polónia foi invadida pelos exércitos russos.
Apesar da encarniçada defesa polaca através dos comandantes Tadeusz Kosciuszko e o príncipe Józef Poniatowski, a guerra de 1792 terminou em derrota com o derrube da Constituição de 3 de Maio e a segunda partilha da Polónia em 1793, na qual participaram a Rússia e a Prússia. O restante do território da República – cerca de 200 mil Km2, com cerca de 4 milhões de habitantes, tornou-se protectorado russo.
Em 1794, sob a chefia de Tadeusz Kosciuszko, rebentou a insurreição que constituiu uma tentativa de eliminar as partilhas. Foram libertadas Cracóvia, Varsóvia e Vilnius. A Prússia entrou então na guerra ao lado da Rússia, cercando Varsóvia. Apesar do enorme esforço militar e material e do heroísmo dos soldados e da população civil, incluindo os citadinos e camponeses atraídos para a questão nacional, a insurreição caiu.
Do seu destino decidiu a derrota nas cercanias de Maciejowice, bem como a conquista do bairro de Praga, em Varsóvia, por Suworow e o massacre da sua população. Varsóvia, aterrorizada pela carnificina de Praga, rendeu-se.
Com a capitulação de Varsóvia deu-se a terceira partilha da Polónia em 1795. A Prússia apoderou-se da Mazóvia, Varsóvia até as terras junto ao rio Niemen; a Áustria ficou com as terras entre os rios Pilica, Vístula e Bug; por sua vez a Rússia apoderou-se das terras entre o rio Bug e o médio Niemen.
O Estado polaco foi destruído no período em que as reformas internas e o estado da educação, bem como da economia, criavam os sólidos fundamentos da sua existência e desenvolvimento.


2.3 GUERRAS E INSURREIÇÕES POLACAS DO SÉCULO XIX.

A partir das partilhas até a primeira guerra mundial, durante 123 anos de opressão, as sucessivas gerações de polacos empreenderam a tentativa de recuperação da independência. Entretanto, era difícil contar com a reconstrução da Polónia sem uma conjuntura internacional favorável. A Rússia, a Áustria e a Prússia conduziam uma política comum visando a manutenção das conquistas, e evitando conflitos entre si. Por sua vez, a vitória da Polónia sobre as três potências, ao mesmo tempo, era impossível.
As três monarquias ocupantes eram estados absolutos, o sistema das mesmas encontra-se em completa contradição polaca – de democracia, autonomia e liberdade cívica da nobreza. Essas tradições eram cultivadas não só pelos proprietários de terra polacos, pelo clero e pela parte esclarecida dos citadinos, mas também por um grupo especificamente polaco – a “inteligensia”, isto é, grupo de funcionários, originários da nobreza e cultivando seus ideias.

2.4 A INSURREIÇÃO DE 1806 E A CRIAÇÃO DO
PRINCIPADO DE VARSÓVIA.

A luta dos polacos pela liberdade era uma luta contra a violência e o absolutismo. Por isso a questão polaca foi vinculada com os movimentos libertários e democráticos europeus. Isso encontrou expressão na participação dos polacos nas insurreições e revoluções europeias do século XIX, bem como na participação de estrangeiros nas insurreições polacas. A frase: “pela nossa e vossa liberdade” tornou-se o símbolo da contribuição polaca para a democratização dos sistemas europeus.
No limiar dos séculos XVIII e XIX, o aliado dos polacos era a França de Napoleão. Em 1797, na Itália foram criadas as legiões polacas, apoiando Napoleão Bonaparte na guerra contra a Áustria. Nos anos 1806-1807 Napoleão derrotou a Áustria, a Prússia e a Rússia.
Por força da paz de Tilsit (1807), das terras da ocupação prussa foi criada o Principado de Varsóvia. Napoleão concedeu-lhe Constituição, foi criado o governo polaco do Principado, introduzido o código napoleónico e os camponeses receberam a liberdade pessoal. Com uma extensão de 155 mil km², o Principado de Varsóvia, contava com uma população de 4.300.000 habitantes, defendido por 39 mil homens armados.
O renascido exército nacional fora arregimentado a partir dos poloneses que haviam lutado ao lado dos franceses, cujos oficiais compuseram o novo quadro militar do Principado de Varsóvia. Napoleão distinguiu como seu comandante o príncipe Józef Poniatowski, o Bravíssimo, sobrinho do último rei da Polónia, Estanislau II Augusto, personalidade nobre que melhor encarnava o espírito romântico do cavalheiro audaz e destemido, tão ao gosto da tradição dos Sarmatas. O General Príncipe Poniatowski, montado num corcel fogoso, era a materialização do ardente desejo de liberdade dos poloneses.
O governo era formado por um triunvirato e estava submetido a um “Residente” – o representante de Napoleão – no caso, o Marechal Davout.
A Constituição do Principado de Varsóvia, expressão do Código Napoleónico, estabeleceu:
a) A igualdade de todos os cidadãos perante a lei;
b) A abolição dos privilégios da szlachta(a nobreza);
c) A abolição da servidão; e
d) Os direitos políticos eram estendidos aos nobres e aos burgueses.
A dedicação das tropas polonesas ao imperador foi integral. Do general ao recruta, todos ficaram com Napoleão até o fim. Durante a invasão da Rússia em 1812, registou-se um facto que virou marco da devoção completa dos cavaleiros dos regimentos de hussardos poloneses por Napoleão. Na travessia do rio Niémen, que separava a Polónia da Rússia, muitos deles, mesmo sendo tragados pela violência da correnteza, ainda gritavam, lá do meio do rio caudaloso: “Vive l´Empereur! Vive l´Empereur![10].
Sobre o futuro da Polónia decidiram a derrota de Napoleão na expedição contra a Rússia em 1812 e as batalhas das Nações nas cercanias de Leipzig (1813) perdida pela França, na qual pereceu heroicamente o príncipe Józef Poniatowski, comandante do exército do Principado de Varsóvia.
O congresso de Viena de 1815 entregou parte do Principado – juntamente com Poznan – à Prússia, porém do resto de suas terras foi criado o Reino Polaco, instituído pela Rússia. O rei passou a ser o czar Alexandre I. sob a autonomia do reino decidiam a Constituição que lhe foi concedida governo próprio, Dieta e exército.
Entretanto, a conciliação do sistema constitucional do Reino com o sistema despótico da Rússia era impossível. A incessante violação e os insucessos da oposição legal levavam a juventude polaca para as organizações conspirativas, que preparavam uma nova insurreição.

2.5 AS INSURREIÇÕES DE 1830, 1848 E 1863.

A formação das organizações conspirativas por jovens defensores da causa polaca coincidiu com o crescimento das perseguições de tudo que era polaco nas áreas do leste da antiga República, com a destruição da florescente Universidade de Vilnius e com a revolta dos decabristas (revolucionários constitucionalistas) na Rússia em 1825.
A marca da insurreição tornou-se a revolução de Julho de na França, a insurreição na Bélgica e o projecto russo da intervenção armada, que contava usar os exércitos do reino para sufocar esses movimentos libertários.
A insurreição eclodiu em Varsóvia, em 29 de Novembro de 1830. Foi criado um governo independente, a Dieta detronizou o czar. Teve início a guerra polaco-russa. Excelentemente treinado armado, o exército do Reino lutou até Setembro de 1831, porém não podia ganhar essa guerra face aos recursos humanos e económicos da Rússia. A queda da insurreição trouxe a suspensão da Constituição, a liquidação do exército do Reino, o encerramento da Universidade e a construção de uma fortaleza em Varsóvia.
Tudo que era polaco foi cruelmente perseguido na Lituânia, Bielo-Rússia e Ucrânia, aplicando-se a deportação e a confiscação dos bens. Foi fechada a Universidade de Vilnius. Os polacos foram também reprimidos em Poznan pelas autoridades prussas e na Galíca pelas austríacas.
A derrota provocou a emigração de cerca de10 mil líderes e participantes da insurreição. Emigraram principalmente para a França. Em Paris criaram as suas obras, os poetas Adam Mickiewicz, Juliusz Slowacki, o compositor Frederico Chopin e o historiador Joachim Lelewel.
As discussões sobre a preparação da continuação da luta armada conduziam a Sociedade Democrática Polaca; a luta diplomática pela manutenção da causa polaca era conduzida pelo conde Adam Czartoryski.
Uma outra tentativa de levante repetiu-se em 1848, por ocasião da chamada Primavera dos Povos, quando, por igual, fracassou a sublevação na região de Malopolska, a Pequena Polónia. Fugidos, inúmeros patriotas poloneses, retomando a tradição legada por Tadeusz Kosciuszko, tornaram-se activos internacionalistas, lutando em outros países europeus contra a política da Santa Aliança: na Itália (Adam Mickiewicz e Wojciech Chrzanowski), na Alemanha (Wiktor Heltman, Ludwik Mieroslawski, Franciszek Sznajde), na Áustria (Józef Bem), na França (Maria Sklodowska-Curie), nos Estados Unidos da América (Helena Modrzejewska e Ignacy Paderewski) e na Hungria (Józef Bem, Henryk Dembinski, Józef Wysocki).
Em 22 de Janeiro de 1863, deu-se a última tentativa do século XIX para que eles, liderados dessa feita por Traugut, recuperassem a sua liberdade. Protestando contra a convocação militar de jovens para servirem no exército do czar, milhares de civis rebelaram-se contra o domínio russo. Apesar da simpatia que arrancaram para a sua causa, novamente ninguém ajudou concretamente os sublevados (com excepção do líder dos anarquistas russos Mikhail Bakunin que, em nome do internacionalismo libertário, tentou engajar-se para ir lutar ao lado dos poloneses; todavia, ficou à distância, em Estocolmo, na Suécia).
Os russos somente conseguiram liquidar os últimos redutos de resistência em 1865. Os patriotas foram então deportados em massa para a Sibéria e 18 mil deles condenados a longas penas de exilados.
O czar Alexandre II ordenou a dissolução do Reino da Polónia, substituindo-o pelo País do Vístula, subdividido em 10 regiões transformadas em províncias russas.[11]
Todas essas insurreições, que demonstravam o carácter indómito do povo polonés, fizeram com que eles fossem chamados de “os ilotas da Europa moderna”, pois bastava o opressor distrair-se para ter que enfrentar um levante.

2.6 A RECUPERAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA E
A QUARTA PARTILHA DA PÓLONIA.

Para alcançar a tão esperançada liberdade nacional, a Polónia teve que esperar pela desgraça colectiva dos seus vizinhos, ocorrida ao final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Somente com o desmantelamento dos Impérios Centrais (a derrota do IIº Reich na Alemanha e o fim do domínio dos Habsburgos na Áustria-Hungria, simultâneo ao colapso da Dinastia Romanov, entre 1917-1920), tornou-se possível a proclamação de uma república polonesa totalmente autónoma.
Mesmo assim, os estragos da guerra deixaram suas marcas por todas as partes. A presença dos exércitos estrangeiros, alemães, austríacos e russos, enfrentando-se por quase todo o território nacional, deixaram para a nova Polónia uma terra arrasada, praticamente sem recursos para estruturar o seu tão almejado estado nacional independente.
A Polónia, que teve reconhecida sua autonomia pelos bolcheviques, em Março de 1918, entrou em guerra contra eles em 1920, atendendo à ambição estratégica do Marechal Józef Pilsudski, herói nacional, em manter o controle sobre os dois mares, o Báltico e o Negro. O Exército Vermelho reagiu por meio de uma contra-ofensiva e somente foi batido às portas de Varsóvia, quando Pilsudski lhe impôs uma severa derrota, conhecida como “O milagre do Vístula”, que garantiu assim, pela força das armas, a independência nacional.
A Constituição de 1921, a da chamada Segunda República, aboliu todos os títulos de nobreza e introduziu o princípio da igualdade cidadã (todavia, com a ampliação da crise económica internacional desencadeada nos anos 30 do século XX, a nação viu-se forçada a aprovar a Constituição autoritária de 1935).
Nos anos seguintes ao governo do Marechal Pilsudski (a dita “Ditadura Moralizadora”, de 1926 a 1935) dois novos poderes ameaçadores da segurança da Polónia ergueram-se ao oeste e ao leste. Em 1933, o nacionalista radical Adolf Hitler assume o poder na Alemanha com explícitos planos expansionistas (o que implicava o reclamo dos territórios alemães cedidos à Polónia pelo Tratado de Versalhes, de 1919).
Em 1934, foi a vez de Staline assegurar definitivamente a sua liderança total sobre o Estado Soviético, por ocasião do chamado “congresso dos vencedores”, ampliando o projecto de transformar a URSS numa grande potência. As nuvens negras carregadas com a tempestade da guerra – formadas pelo nazismo e pelo estalinismo – ergueram-se sobre os horizontes das duas fronteiras da Polónia.
O país viu-se vítima da associação entre as duas ditaduras (o Pacto Germano-Soviético de Agosto de 1939, que estabeleceu a partilha secreta da Polónia entre Hitler e Staline, ficando o primeiro com ¾ dela) e, no transcorrer da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com a Polónia totalmente ocupada pelo IIIº Reich, ela foi transformada em Governadoria-Geral. Coube a Hans Frank, um dos piores carrascos nazistas, a sua comandância, servindo de palco para as batalhas brutais travadas entre os exércitos de Hitler e de Staline.
Além disso, a Polónia viu-se escolhida como o local ideal para a aplicação da política de extermínio em massa (Endlösung) desencadeada pelas forças de ocupação nazista. Judeus, ciganos e outras minorias foram transportados em vagões de gado, de todas as partes da Europa, para serem liquidados nos seus principais campos de morte (Auschwitz-Birkenau, Treblinka, Sobibor, etc.).
Deu-se, paralelamente, um planejado massacre da elite polonesa, executado pela Einsatztruppe(tropa de extermínio), que visou exterminar políticos, intelectuais, académicos, professores, padres, oficiais superiores, líderes sindicais, etc., fazendo com que a Polónia, principal cenário da guerra racial nazista, fosse uma das nações que, proporcionalmente, mais perdesse habitantes civis durante a Segunda Guerra Mundial[12].

2.7 O LEVANTE DE VARSÓVIA (1944) E
 O FIM DAS PARTILHAS.

Batidos os nazistas em Estalinegrado, em Janeiro de 1943, e novamente derrotados na batalha do bolsão de Kursk, na Ucrânia, em Julho de 1943, a grande contra-ofensiva soviética aproximou-se das fronteiras da Polónia em 1944. Aproveitando-se da evidência do Exército Vermelho estar nas cercanias de Varsóvia, a resistência polonesa do Armija Krazowa(AK), braço militar do governo exilado em Londres, lideradas pelo general Bor-Komarowscki, seguindo nas esteiras do levante judeu do Gueto de Varsóvia, ocorrido em 1943, intentaram um surpreendente alçamento armado contra os nazistas. Visavam liberar a cidade e o restante do país sem o auxílio directo dos russos.
Como os soviéticos não foram consultados sobre a conveniência da insurreição, iniciada em 1º de Agosto de 1944, não houve articulação entre o comando polonés na capital e as tropas russas que estavam do outro lado do rio Vístula, acampadas a alguns quilómetros distantes. Deu-se, então, a grande tragédia.
Isoladas e mal equipadas, as milícias do AK, depois de sustentarem um combate urbano desproporcional durante 63 dias dentro de Varsóvia, foram dizimadas pelas divisões blindadas da Wehrmachte da SS Dielenburg. Obedecendo à ordem de Hitler, elas destruíram com canhões, em conjunto com os bombardeios aéreos rasantes feitos pela Luftwaffe, praticamente nove décimos da capital polonesa (98% dos edifícios públicos foram dinamitados). Em meio aos destroços, encontraram-se 200 mil mortos, restos humanos de um dos mais terríveis massacres da população civil da Segunda Guerra Mundial.
O levante de Varsóvia fora mais um dos tantos levantes fracassados da história da Polónia, só que, desta vez, o desastre de 1944 ultrapassara, em perdas humanas e bens nacionais destruídos, a qualquer outro episódio do passado nacional dos poloneses. Somente em Janeiro de 1945, as divisões do Exército Vermelho penetraram na capital polonesa afastando definitivamente os nazistas. Encontraram uma cidade destruída, uma enorme metrópole fantasma, estraçalhada por um vagalhão de balas e de bombas, que haviam feito dela um imenso entulho de tijolos e pedras calcinadas, misturadas ao sangue derramado dos insurgentes varsovianos.





CONCLUSÃO

Rousseau, reflectindo sobre o sistema político polonés, escreveu: “Lendo a história do governo da Polónia, compreende-se com dificuldade como pode, um Estado tão singularmente constituído, subsistir por tão longo tempo. Um grande corpo formado por um grande número de membros mortos e por um pequeno número de membros desunidos, cujos movimentos todos, quase independentes uns dos outros, longe de terem um fim comum, se destroem mutuamente... que não pode oferecer resistência algum a quem desejar ofendê-lo...”.[13]
Contudo, nenhum outro povo da Europa Moderna, de Tadeu Kosciuszco a Lech Walesa, travou tantas batalhas para, em fim, conseguir aspirar os ares da liberdade, da autonomia e da independência nacional, como os poloneses o fizeram. Durante bem mais de dois séculos, esses ilotas do leste empenharam-se em se defender das intromissões e das ocupações, das violentas repressões, das matanças, seguidas pelas penas do degredo e do exílio forçado dos patriotas, que as potências vizinhas os submeteram. E, como se dera no passado, foi o enfraquecimento delas, da Alemanha (depois da derrota nazista de 1945, seguida da ocupação aliada) e da Rússia (após o desmantelamento da URSS, em 1989-1991), que concretamente viabilizou a actual situação democrática que a Polónia voltou a viver.
Dominada desde o século XVIII até o XX, a nação sofreu de tudo: da dominação czarista à brutal ocupação nazista e stalinista. Os poloneses sentiram nas suas costas os flagelos de todos os tipos de chicote sem que isso afastasse do horizonte deles a esperança de se verem algum dia verdadeiramente livres.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DAVIES, Norman: God’s Playground: A History of Poland, New York: Columbia University Press, 1982.
DAVIES, Norman: Heart of Europe: A Short History of Poland, New York: Oxford University Press, 1984.
HEINE, Marc E: Poland, New York, Hippocrene Books, 1987.
IWANICKA, Halina: A Thousand Years of Polish Heritage (Chicago: Commerce Clearing, Inc., 1966).
KINIEWICZ, Jan: Historia de Polónia, México, 2001.
KIENIEWICZ, Stefan, e MORAWSKI, Kalikst: La Polonia e il
Risorgimento italiano, Roma, 1961.
KULA, Witold: Teoria económica do sistema feudal. Lisboa: Editorial Presença, s/d.
MABLY, Abade: De la législation, ou principe des lois, Amsterdam, 1776.
ROUSSEAU, Jean-Jacques: Considerações sobre o Governo da Polónia, in Obras Escolhidas. Porto Alegre: Editora Globo, 1962, vol.II.
TYMOWSKI, Michal: Sinopse de história da Polonia, Editions Spotkania, Paris, 1986.





[1]ROUSSEAU, Jean-Jacques – Considerações sobre o Governo da Polónia, in Obras Escolhidas. Porto Alegre: Editora Globo, 1962, vol. II.
[2] A nobreza polonesa dizia ter sua origem nos Sarmatas (daí Szlachta), uma tribo da qual pouco se conhece, famosa entre os antigos pelas virtudes cavaleiras. Nesse mito distinguia-se o sentimento da superioridade oriunda da condição estamental, mas não étnica ou religiosa. O sarmantismo tornou-se, com o tempo, uma autêntica característica nacional, obtendo a adesão de todas as classes sociais.
[3] O liberum veto implicava que qualquer integrante da instituição (Dieta ou assembleia), lançando mão do poder de veto, podia paralisar o poder executivo.
[4] De que se destacou Jan Kochanowski (1530-1584) com os seus poemas, cantos, bem como nos versos fúnebres.
[5] Particularmente desenvolvida era a astronomia, desse meio surgiu Nicolau Copérnico (1473-1543), autor de “ Revolutionibus orbium coelestium”. Desenvolveu-se também a cartografia, agrimensura, medicina, o direito, as ciências naturais e agrícolas.
[6] Face à tolerância dominante na Polónia o rei Sigismundo dizia: “ Não quero ser senhor das vossas consciências”. Com isso viu a existência do luteranismo, calvinismo, catolicismo, russa-ortodoxa, e até as mais radicais como o arianismo.
[7] Existia a câmara dos deputados representada pela nobreza, enquanto o antigo conselho real – denominado senado – era representado pelos magnatas.
[8] Eram assim chamadas as pessoas que no baixo curso do Dnieper, na região de Zaporoze, criaram um tipo de República de guerreiros. Os distantes confins da Ucrânia, os chamados campos selvagens, atraíam os camponeses fugitivos e a nobreza desclassificada. Eram pessoas valentes, independentes, frequentemente aventureiras e magníficos soldados. Parte significativa das suas rendas constituía troféus de guerra.
[9] Mosteiro Paulino em czestochowa e centro nacional do culto mariano (relativo á Virgem Maria).
[10]Este incidente também foi registado por Tolstoi na sua obra “Guerra e Paz”.
[11] Certamente foram essas circunstâncias sombrias de ver a Polónia novamente prostrada, lacerada pelas perseguições da polícia czarista, que inspiraram Henryk Sienkiewicz, célebre romancista histórico, a escrever o famoso livro Quo Vadis, de 1895, que se tornou um sucesso mundial, no qual narra os sofrimentos dos cristãos na Roma antiga, durante o reinado de Nero.

[13]ROUSSEAU, 1962, vol. II.

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